23 de setembro de 2020
Olhar Brasilia
Samanta Sallum

Sobre Torres e Rainhas

Tempo de leitura: 3m e 10s

Às vezes, a gente se engana achando que é nosso o jogo dos outros. Tem aqueles que nos cercam, instigando nosso ego, nos convencendo de que jogar o jogo deles é o melhor para nós.

“Relaxa, Samanta, aqui não existe jogada errada. Mexa suas peças como você quiser, seguindo só a sua vontade. Não pense em estratégias.”

Nossa! A coisa mais generosa que eu ouvi nos últimos tempos! Eu estava diante de um tabuleiro de xadrez e suas clássicas peças: torres, rainha, cavalos. E eu não lembrava como jogar. Era um exercício de um curso que fazia. Que angústia me deu na hora. “Eu não posso decepcionar agora! Tava indo tão bem!”, ecoava na minha cabeça.

Mas aquele que era para ser meu adversário, que estava ali para desafiar meus conhecimentos, virou um divertido condutor. Então, era para eu ir jogando a minha maneira. Achei engraçado e comecei a relaxar. Mesmo assim, o jogo ainda estava meio preso, pensado. Esquisito jogar sem regras. “Preciso delas, estão me fazendo falta”, batia uma ponta de insegurança. Bobagem, puro condicionamento.

Cansei de jogar o jogo dos outros. Aqui, neste espaço, neste blog, entro pela primeira vez em campo para jogar o meu jogo. Entro sem uniforme nem chuteira.

Preguiçosa

Fui então lançando minhas torres à frente. Avançavam, conquistavam. Eu tinha a sensação de estar ganhando, mas ainda não estava me divertindo. Foi quando me senti atraída a um movimento brusco. “Jogue, Samanta. Não pense!”, provocava meu parceiro. Feito! E ele comemorou: “Até que, enfim, mexeu sua Rainha, Samanta! Você a fez entrar no jogo, deixando as torres para trás”. A Rainha, antes preguiçosa, começou a dançar. As torres pareciam estar fazendo tão bem o trabalho… Tudo parece tão óbvio agora, mas na hora era pura intuição. Eu achava que deveria preservar a Rainha ao máximo, que ela não deveria se desgastar, se expor ao jogo.

Na verdade, a coisa acabou fluindo de maneira muito mais fácil. Esse exercício aconteceu há dois meses e resume hoje muito bem o meu momento. Cansei de jogar o jogo dos outros. Aqui, neste espaço, neste blog, entro pela primeira vez em campo para jogar o meu jogo. Entro sem uniforme nem chuteira. Quero jogar uma pelada no melhor sentido da palavra. Às vezes, a gente se engana achando que é nosso o jogo dos outros. Tem aqueles que nos cercam, instigando nosso ego, nos convencendo de que jogar o jogo deles é o melhor para nós.

Medalhas pesam

Saí daquela noite, após minha “provinha final” do curso, feliz, leve, desobrigada a ganhar, tendo todo direito de perder, e até sentir prazer com isso! Tem ganho maior que esse?! Medalhas demais às vezes pesam, nos curvam. Manter castelos erguidos para a admiração dos outros é chato. No meu tabuleiro, a Rainha dançou conforme a minha essência. As torres eram comandadas pelo ego. Espontaneidade “versus” estratégia. Minha Rainha foi sufocada em muitos ambientes que transitei em Brasília. Nesses lugares, a torre foi eficiente para servir outras rainhas e, desse jeito, bem menos ameaçadora. Mas, enfim, aprendi a jogar com ela, a dar o valor que tem: a peça mais poderosa do xadrez. Fui aprovada no curso e ganhei meu certificado. Ganhei minha liberdade.

PS – Brasília me demandou muita estratégia para sobreviver nela, porém foi mais generosa ainda ao me empoderar para curtir toda a minha espontaneidade. Acho que a melhor jogada é a mistura da espontaneidade com a estratégia. Está no sentido de oferecer caminhos mais seguros para te conduzir onde sua espontaneidade quer chegar.

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6 Comentários

  • Reply
    Mateus Rosa
    2017-06-06 at 16:51

    Como estudante de jornalismo posso dizer que isso me alegra, proporciona esperança e me faz querer prosseguir nesse ramo. Com certeza eu irei passar adiante, recomendando aos meus familiares e amigos, por um olhar cada vez mais caloroso! Obrigado por compartilhar essa visão conosco. Sucesso!

    Mateus Rosa.

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    Hélio Albuquerque
    2017-06-07 at 13:44

    Quando a Rainha se despe, se desprende e liberta, o jogo flui sem remendos, limpo e transparente para o prazer dos aliados e adversários… É uma partida sem perdedores onde o deleite está apenas na troca desinteressada com total desobrigação de resultados. Tal qual Brasília, nada como asas incondicionalmente esticadas levando-nos em direções onde o desejo habitar. “God save the Queen”, com torres abertas à receber quem quiser somar… Parabéns!!!

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    Leo Medina
    2017-06-07 at 13:51

    Achei este texto inspirador. Descobrir essa “rainha” é libertador; usar e entender a norma para poder modificá-la. Desejo muito sucesso e ficarei acompanhando!

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    Patrícia fernandes
    2017-06-08 at 00:30

    Que bela jogada, empolgante e inspiradora! Estou certa de que sua rainha vai brilhar mais nessa partida do que na soma de todas as anteriores! Desejo que a alegria de jogar seja mais importante do que o resultado. Assim você será sempre vitoriosa!

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    Viviane da Rocha Spiegel
    2017-06-10 at 14:06

    Melhor que esse texto , é ser mãe dessa Rainha !! Muito feliz e muito orgulhosa de constatar tanta competência e capacidade profissional . Vc lida e joga com as palavras de uma forma mágica ! Maravilhada com essa coragem de quem entra no campo pra jogar seu próprio jogo com gana , vontade e coragem . Vida longa à Rainha !!

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    Carmen Morici Crego
    2017-06-12 at 06:28

    Quem não joga, não vive….e quanto mais jogamos nosso jogo mais chance de sermos felizes teremos. Cada um de nós tem seu próprio estilo, respeitar isso aceitando que cada jogada e um fim por ela mesma, também é outro segredo. Na verdade a maior jogada de todas e continuar jogando, acreditando, aprendendo, se reinventando. Vai em frente Samanta!!! Você é uma grande Rainha que não precisa de Torres para brilhar. Seu tabuleiro já está a seu dispor, vai em frente e tenho certeza que cada dia mais você se sentirá mais feliz!!!!

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