30 de outubro de 2020
Olhar Brasilia
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Samanta Sallum

Mosaico, não quebra-cabeça

Não deixe que transfiram a você o desconforto de te verem feliz de uma forma diferente. Fique atento: até que ponto, seus problemas são seus mesmo ou foram inventados para você? 

Às vezes, geramos um desconforto nos outros quando nos veem fora daquela caixinha ou da gaveta que te enfiaram e rotularam. Já fui parar no divã encucada com problemas que terceiros criaram para mim, que eu nem sabia que tinha. Sem querer, ou conscientemente, pessoas enfiam caraminholas na nossa cabeça e nos fazem sentir desencaixadas. “Oi?! Eu tenho algum problema, porque o seu conceito de felicidade, o seu comercial de margarina, não serve para mim?”.

Quantas pessoas não passam por isso? Repare, fique muito atento: até que ponto, seus problemas são seus mesmo ou foram inventados para você?

As pessoas nos julgam por uma métrica subjetiva. Sentem uma dor por você que você mesmo nem sente, mas passa a sentir. Quantas vezes algo que todo mundo achava que te faria feliz não fez? E a gente finge que está feliz. Como também fingimos, em outros momentos, estar infelizes porque era o que esperavam naquela situação.

Melhor ter a sensação de que somos peças de um belo mosaico disforme, e não de um quebra-cabeça chato com seus pedacinhos perdidos desesperados por encontrar seu encaixe

Quando não estou confortável comigo mesma, preciso da aprovação dos outros. Quando estou, não. E me relaciono com as pessoas por prazer, opção, e não por necessidade. Quando nos sentimos confortáveis na nossa própria casa, não buscamos a do outro. Buscamos, mas para uma prazerosa visita.

Vejo que minha trilha ajuda a dar um pouquinho de credibilidade ao que digo. Fui e sou, quem me conhece de perto sabe, a mulher dos relatórios, cumpridora de metas e prazos, especializada em sistemas organizacionais. Mas, quando, na minha vida pessoal, percebem certos pontos caóticos, sofro rejeições e cobranças.

Carona

Eu tenho dificuldade com rigidez de horários, não gosto de planejar meu tempo livre como faço com o do trabalho, não gosto de cumprir lista de tarefas, aliás,  gosto de começar. Mas com a liberdade de me perder no meio do caminho.

Tenho pavor daqueles planejamentos de viagens, hora a hora, pra aproveitar ao máximo. Eu faço o que der desde que seja no meu ritmo. Nada contra quem faz aquelas programações frenéticas, eu até aproveito, gosto de quem planeja, pego carona, mas nas partes que me interessam. Não cumpro tudo. “Mas você não foi lá ao restaurante tal? Ao mirante não sei das quantas?”. Não, não fui! Preferi ficar mais tempo em outro lugar”, é o que mais respondo quando volto das minhas viagens.

Pago contas com atraso, porque não vi que venceram. Não sou nada certinha como sou na vida profissional. É um milagre meu carro funcionar, por sinal, acabo de lembrar que tenho de comprar pneus novos! Para ser sincera, não sou uma pessoa caótica, mas também não sou exemplo de organização. Não sou aquela que anda com multidões, mas também não pertenço a focos rebeldes. Ser o meio-termo das coisas, às vezes, é difícil. Chega a ser solitário, mesmo. Ou você é isso ou você  é aquilo. Se faz uma coisa, não pode fazer outra. Mas o que importa é a gente se explicar menos e viver mais.

PS – Este rodapé hoje é para o camaleão (foto) que me representa e tenho certeza de que a muita gente. Ele é masculino, feminino, andrógino, é alienígena, sempre se reinventando. Sou fã babona de David Bowie e seu Ziggy Stardust, que “nasceu” 1 ano antes de mim. Prefiro ser vidrilho disforme a me colar num mosaico-caleidoscópio e fazer parte de um quebra-cabeça chato, com suas pecinhas perdidas desesperadas por achar o seu encaixe. Bom feriado! 

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