19 de outubro de 2019
Olhar Brasilia
Marcia Zarur

Cadê o poema que estava aqui?

Uma das joias da nossa cidade está encravada na W3 Sul. Um prediozinho branco, baixinho e despretensioso que guarda muitas histórias da minha geração. A Biblioteca Demonstrativa reflete muito da decadência da avenida mais charmosa de Brasília.

O prédio do antigo INL (Instituto Nacional do Livro) foi interditado, em maio de 2014, pela Defesa Civil, por risco de desabamento da marquise e falta de segurança em caso de incêndio. Já são três anos de promessas de reabertura e expectativas frustradas. O Ministério da Cultura, responsável pela obra, instalou chamativos cartazes na fachada anunciando: vem aí a nova Demonstrativa. Mas até agora nada!

A gente foi se acostumando a ver as portas fechadas e os vidros lacrados, cobertos com lona preta, mas as laterais ainda nos contagiavam de encanto com os poemas em mosaicos coloridos. Era possível se deliciar com a Suzana de Nicolas Behr ou viajar com a estrela acesa na janela dos sonhos de Cassiano Nunes.

Mais do que poemas, são declarações de amor à cidade. Marcas nas paredes que nos fazem lembrar da poesia e, principalmente, dos poetas que traduzem Brasília em versos.

Nicolas Behr brinca com as siglas, faz trocadilhos e instiga reflexões sobre quem somos e como queremos continuar construindo essa cidade inventada. Fica aos pés, ou aos pilotis, de Brasília pra revelar facetas dessa cidade vanguarda.


Naquela noite
Suzana estava
mais W3
do que nunca
toda eixosa
cheia de L2
Suzana,vai ser
superquadra
assim lá na
minha cama”

Nicolas Behr

Cassiano Nunes viveu Brasília e viveu a literatura como poucos. O senhor solitário, que morava numa casa geminada da W3, escolheu uma casa feita de livros, sem televisão, onde mergulhava em palavras e devaneios. O poeta morre, mas a obra estampada ali não deixa que se esqueçam dele.


Como posso
queixar-me de solidão
Se possuo a
noite e a sua canção?
A noite é tão vasta
que me perco nela
Amor!
Acende a estrela da tua janela.”

Cassiano Nunes

 

O artista Henrique Gougon e a turma do ‘Loucos de Pedra’ e ‘Ciranda do Mosaico’ coloriram a cidade e inseriram versos, desses e de outros importantes poetas, onde ninguém imaginava… Calçadas, pontos de ônibus, paredes! E agora o brasiliense se ressente com a falta que a poesia faz, o acalento nos minutos de sinal fechado e o respiro no estresse do dia a dia. Viva a nossa Biblioteca Demonstrativa! E saibam que queremos de volta os poemas que deveriam estar ali.

O Ministério da Cultura diz que retirou os mosaicos para restaurar a parte externa da Biblioteca e que vai devolvê-los quando a obra estiver pronta. O ministério espera reabrir o espaço até o fim deste ano. Tomara! A boa notícia é que parte do acervo, cerca de 3.000 obras, vai estar disponível para o público numa sala do prédio do Touring, na plataforma superior da Rodoviária, já no mês que vem. Vamos continuar de olho!

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Um comentário

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    Henrique Gougon – Memória & Invenção
    2018-03-14 at 13:51

    […] 1 | Fonte 2 | Fonte […]

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