19 de outubro de 2019
Olhar Brasilia
Lá na minha rua

Uma reflexão sobre o futuro da cidade

Os Restaurantes Unidade de Vizinhança (RUVs) são exemplo de como um assunto pontual pode extrapolar as dimensões de uma quadra. Não é apenas uma discussão sobre a preservação de meia dúzia de árvores, mas sobre o amanhã que queremos para Brasília.

Desde o início, o Olhar Brasília defendeu o caminho de uma solução negociada, que não prejudicasse os empresários, que estavam agindo dentro da lei e que têm um papel importantíssimo na geração de emprego e renda; e que ouvisse as demandas legítimas dos moradores, que sentem a qualidade de vida na cidade se deteriorando.

O trânsito está cada vez mais caótico, com engarrafamento e estacionamentos insuficientes; a poluição é crescente; e o brasiliense sofre os efeitos da crise hídrica, devido à excessiva impermeabilização do solo, entre outras consequências. Tudo isso está relacionado a questões como a construção dos RUVs. Não se trata de proibir, mas de analisar com mais critério se a obra é compatível com o local e com as necessidades da comunidade.

Depois de alertarmos sobre a preocupação da comunidade com a obra na 207 Sul, o GDF enviou uma nota ao Olhar Brasília na sexta-feira, reforçando a intenção de transferir a construção para outra área. E, hoje, o governador Rodrigo Rollemberg foi até a quadra e gravou um vídeo falando sobre o assunto:

É preciso tomar cuidado no uso do dinheiro público, já escasso, em indenizações para solucionar esse tipo de impasse. Por isso, desde o começo, a possibilidade de uma permuta da área por um terreno em outro local pareceu a proposta mais adequada.

O Distrito Federal enfrenta situações difíceis em áreas essenciais, como saúde e segurança. E os problemas urbanísticos afetam também a qualidade de vida dos brasilienses. A polêmica sobre o RUV da 207 Sul traz à tona o distanciamento entre a legislação e o que realmente a comunidade anseia. Põe em dúvida também as audiências públicas para se definir diretrizes urbanísticas para a cidade. As audiências não ocorrem ou, quando ocorrem, são pouco representativas. É preciso repensar as formas de participação da comunidade. E os moradores devem assumir mais protagonismo nesse processo, para depois não serem surpreendidos com tapumes no meio do caminho.

Uma cidade é feita de múltiplos interesses e é preciso um equilíbrio para analisar e pensar no futuro, procurando o acordo e o diálogo. No mundo real, sabemos que nem sempre isso é possível, especialmente nos tempos de intolerância extrema vividos no país, mas acreditamos que a reflexão sobre os problemas cotidianos da cidade é fundamental.

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5 Comentários

  • Reply
    Elisa mattos
    2017-07-10 at 21:21

    Sabe uma coisa que me intriga é ninguém esclareceu ainda: o que o plano original de Brasília como RUV? Então nessas áreas teriam obrigatoriamente de ser construídos restaurantes básicos, sem luxo, que atenda a vizinhança , que se possa ir a pé , evitar carros transitando ?? E em algumas dessas áreas onde surgiram prédios cumprem esse papel? Não conheço , e olha que moro na A da Sul há … 50 anos!!! Na 213 sul tem um café/galeria que nunca tá aberto, nunca vi divulgação de exposição lá e não conheço quem frequenta! Estranho né !?
    Elisa Mattos

  • Reply
    Elisa mattos
    2017-07-10 at 21:24

    ** corrigir no original:
    … e ninguém esclareceu ainda: o que o plano original de Brasília classifica como RUV?…”

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    antonio santos
    2017-07-10 at 23:00

    Este caso é emblemático e mostra muito da “cara” de Brasília. O que sempre esteve a prejudicar as quadras comerciais da asa sul não são e nunca foram as edificações chamadas RUVs, mas a “legalização” irregular dos famigerados puxadinhos, que invadiram áreas públicas, criaram favelas no patrimônio da humanidade e adensaram os comércios locais. Um Lixo legal!!..Grilagem no Patrimônio pode? Enquanto isto a comunidade lindeira, que hoje está reclamar, calou-se e foi cúmplice ao aceitar em não serem ouvidas em audiência pública sobre o absurdo da legalização destas invasões. Estranho que agora um simples bloco comercial vá criar um “grande” problema para a quadra e para o Plano Piloto. Lucio Costa quando propõem os Ruvs com gabarito livre o faz para dar uma a imagem diferenciada a quadra…Falta muita sensibilidade, falta profundidade em se analisar o PP. Um surto esquizofrênico está a acontecer!!!! O que é legal, que está registrado e faz gerar riquezas não pode existir, mas o que é ilegal, além de ser legalizado, continua a emporcalhar as singelas quadras do Plano piloto, pois a fiscalização continua como sempre: inoperante. A Esquizofrenia continua pois na suas ações o GDF surpreende ao fazer obra determinada pela Segth para expansão de grilagem em terras comprovadamente públicas nas fronteiras do Lago Sul. O RR está a prometer legalizar o que os tribunais já sentenciaram que não é passível de legalização. O GDF insiste e está a insuflar a maior farra da grilagem de luxo do DF…O governo é bipolar tb?. A mídia não vê e quando vê parece não ler as sentenças. Por que tb não é noticia?…… Em Brasília a ética ainda é uma coisa estranha aos governos. Atrapalha. Infelizmente falta ao governo RR perceber que governar é punir as irregularidades e promover o que é legal…. o tempo passa e as invasões continuam a crescer enquanto o que é legal não pode existir. Triste Bsb!

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      Elisa Mattos
      2017-07-11 at 18:38

      Sr. Antonio, não me incluo na camada social brasiliense que o senhor classifica como “esquizofrênica”. Tenho horror, pavor e desprezo pelos puxadinhos e os exponho e denuncio sempre que tenho chance. Eu faço a minha parte em relação à todas ilegalidades, todas! Porém jamais vou defender o poder econômico como a força maior da sociedade, que tudo pode, tudo quer, tudo faz☀️.

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    Murilo Marques
    2017-07-14 at 01:18

    Elisa, você está coberta de razão. Alguns setores ligados à indústria de Construção que remunera escritórios de arquitetos acreditam em um determinismo legalista que se resume no seguinte: Se o mercado quer, pode construir, mesmo contra tudo e contra todos. A comunidade da Asa Sul tem combatido essa visão simplista da Cidade e de seu desenvolvimento. É uma verdadeira mentira afirmar que os RUVS estavam no plano de Lúcio Costa. Como se isso pudesse ser afirmado por esoterismo de tecnocratas iluminados e não com base em documentos. A documentação prova a existência de plantas que não são do Lúcio que previam uma pequena CASA DE CHÁ para as pontas dos CLS 100 e 200, e só. No decorrer dos anos, isso foi mudado inúmeras vezes por técnicos do GDF, por pressões especulativas. Aumentaram o lote. Criaram a sigla enganosa RUV (restaurante unidade de vizinhança), puxaram e repuxaram a dimensão e posição do lote. Nos anos 80, deturparam ainda mais, elaborando normas obscuras que permitiram a construção nesses lotes de prédio de dois andares, para minishoppings, academias de ginástica, lojas de eletrodomésticos, clinicas etc., sem participação, sem discussão política. Logo, o RUV é uma falácia. Esses prédios que destroem árvores e calçadas, impedem ciclovias e prejudicam o trânsito, tão mal posicionados, nunca foram parte do plano de Lúcio Costa que priorizou o verde e a livre circulação (concepções protegidas legalmente). Casa de chá estava no plano. Ao contrário, o RUV foi uma mentira inventada muito tempo depois a portas fechadas para agradar o mercado.
    A cidade tem o direito de traçar seu destino. Lúcio Consta estaria do lado do verde e do pedestre, e não dessa invenção do RUV que o deturpa. Basta lermos os documentos.

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