Olhar Brasilia
Espaço convidado

Raiva e frustração de um brasiliense

Convidado: Henrique Fróes é colunista do site Congresso em Foco. Formado em Comunicação Social e em Filosofia, é mestre em Psicologia Clinica e Cultura pela UnB.

Lugar de fala é importante, né? Então, peço licença para me apresentar: sou brasiliense nato, filhinho de papai criado no Lago Norte, atualmente residindo em um condomínio de quitinetes no final da Asa Norte. Passei quase todos os meus 40 anos de existência aqui no quadradinho: sou jornalista, fui DJ, já dei aula, quase passei em um concurso para o Senado. Vou sobrevivendo sem muito perrengue pulando de um emprego para outro, enquanto vou colecionando diplomas na UnB.

Brasília, é bom que se diga, sempre me tratou bem. Me deu a segurança necessária para curtir a infância despreocupadamente nas ruas do Lago Norte. Me deu opções de lazer e cultura para suportar o tédio e a depressão da adolescência. Me possibilitou ter uma boa formação escolar e intelectual, além de oferecer as condições para prover o meu sustento financeiro. Como cidadão brasiliense de classe-média, morador do Plano Piloto, não tenho (quase) nada do que reclamar.

Mesmo assim, quando paro para pensar sobre Brasília, o sentimento que me vem em primeiro lugar é o de frustração. Não pelo que a cidade me oferece, e sim pelo que ela prometia ser e não foi. É como se Brasília fosse Lila, a personagem principal da série de romances de Elena Ferrante: a amiga genial, que todo o bairro invejava e desejava, não foi capaz de obter a vida que seu talento lhe permitiria alcançar. Acabou se perdendo na mediocridade geral dos que estavam à sua volta.
Da primeira da classe à turma do fundão.

Aprendi a amar Brasília quando, lá pela metade dos anos 90, a capital era pródiga em oferecer exemplos positivos para o resto do país. O único governo local digno de lembrança nos enchia de orgulho com ações como o programa Bolsa-Escola e a campanha pelo respeito à faixa de pedestres. A UnB inovava com a criação do PAS – uma alternativa ao famigerado vestibular – e, anos mais tarde, com a adoção do sistema de cotas. O Correio Braziliense se destacava no cenário nacional como um jornal visualmente brilhante e editorialmente ousado.

Parece pouco, mas, para quem estava saindo da adolescência e tinha alma de Poliana, Brasília parecia estar no rumo certo para ser uma cidade, no mínimo, acima da média. E a impressão que tenho hoje é que a outrora boa aluna foi se juntar preguiçosamente com a galera do fundão. Se olharmos Brasília como um todo (e não só as suas ilhas de excelência), a capital gabarita todos os quesitos que transformam a vida nas grandes cidades brasileiras em um suplício. Trânsito insuportável? Check! Violência descontrolada nas periferias? Check! Sistema de saúde em estado de calamidade? Check! Educação medíocre? Check! Representação política imprestável? Check! Check! Check!

Para sermos justos, naquela época áurea da minha juventude, Brasília também dava suas mancadas. O primeiro senador cassado da história do Brasil, o assassinato cruel de Gaudino, a prisão ridícula do Planet Hemp. Mas, de uns tempos para cá, temos nos superado no quesito pagação-de-mico-monstro. Tivemos a honra de ter dois ex-governadores, de campos políticos opostos, presos ao mesmo tempo; uma biblioteca milionária que passou anos sem disponibilizar um mísero livro; uma Câmara Legislativa cuja única função que desempenha a contento é a de fiscal do cu e do útero alheio.
Ordem na zorra.
Além da frustração, tem a raiva. Uma raiva incontrolável que me invade toda vez que passo por uma calçada arrebentada ou malfeita. Ou quando me deparo com aquelas cerquinhas ilegais impedindo a livre-circulação pelos prédios do Plano Piloto. A coisa vai crescendo com o lixo jogado em qualquer lugar, com as invasões de área pública nas comerciais, com os carros largados em lugares impróprios e improváveis. Passear por Brasília virou um desagradável e inevitável jogo dos sete erros.

Mas, acho que tá bom desse papo de velho ranzinza. Se, depois de tudo isso, minha amiga Samanta ainda tiver coragem de me encomendar outro texto, prometo ser menos Angeli e mais Laerte. É que há tempos estava precisando soltar em texto um pouco desse Bob Cuspe que existe dentro de mim e dar uma boa escarrada nessa imagem limpinha de Brasília. Mas é uma cuspidinha com carinho, para ver se a madame se toca e começa a botar um pouco de ordem nessa zorra.

Você também pode gostar

Nenhum comentário

Deixe uma resposta