Olhar Brasilia
Marcia Zarur

Brasília atrás das grades

Esta semana, falando de Luis Humberto, foi impossível não comparar a cidade registrada nas inesquecíveis fotos dele nas décadas de 70 e 80 com a cidade de agora.

Fico revoltada ao ver a amplitude e a liberdade, nossas marcas registradas, embarreiradas por cercas de ferro. O que faz de Brasília uma cidade tão diferente das outras? Justamente a monumentalidade da obra de Niemeyer, dentro da leveza e da genialidade do plano de Lucio Costa.

Adoro uma comparação que a filha do urbanista, a arquiteta Maria Elisa Costa, costuma fazer. Ela diz que Brasília é como uma sinfonia, com suas escalas, seu ritmo e suas pausas. Tudo tem um lugar certo pra garantir a harmonia. As grandes áreas verdes, os espaços entre as construções, nada foi por acaso.

Então por que desafinar essa música com elementos que não pertencem a ela?

Esta é uma pergunta que eu gostaria muito de fazer aos nossos governantes. Na Praça dos Três Poderes, Executivo e Judiciário zombam da nossa boa-fé com as grades que agridem o visual e nos mostram que o povo não é bem-vindo. Engraçado isso acontecer em plena democracia. Nos sombrios tempos de ditadura, eu era criança e podia escalar os monumentos da Esplanada. Agora grades e guardas reforçam o clichê de que a obra de Niemeyer é distante e de que Brasília é uma cidade fria.

Telas envolvem o controverso Mané Garrincha, e até o Palácio do Buriti ostenta uma ridícula cerquinha no jardim. Parece que não há um único gestor de bom senso que possa acabar com essa aberração das grades. E se o poder público abusa do desrespeito, o cidadão se vê no direito de cercar os pilotis dos prédios de apartamentos. A liberdade plena de que o chão pertence a todos, e o pedestre pode escolher o caminho que quiser, é sufocada pela ignorância.

Nunca vou achar que uma cerca dessas das superquadras vai intimidar um ladrão. Mas com certeza vai mudar o caminho de famílias que passeiam por ali. Nos monumentos sou até capaz de aceitar cercas provisórias para impedir o vandalismo, mas quando se tornam permanentes são quase tão feias quanto as criminosas pichações. Nada justifica que estejam fixas há mais de 4 anos.

Fico me perguntando por onde anda o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que deveria zelar, como o próprio nome diz, pelo nosso patrimônio.

Será que não existe uma medida que nos devolva a cidade como ela deve ser? Afinal, Brasília pertence a nós, moradores, muito mais do que aos políticos que ocupam os prédios e os cargos provisoriamente!

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Um comentário

  • Reply
    Elza Maria de Mello
    4 de agosto de 2017 at 09:36

    Que bonito trabalho!
    Que bom poder entrar aqui no “Olhar Brasília” e ver a verdadeira Brasília que tanto conhecemos!!
    Parabéns Marcia, parabéns Samanta!!!
    E muito, muito obrigada por estarem valorizando tudo que já temos e por criarem, agora, oportunidades de conhecermos mais ainda do que a cidade já nos ofereceu de bom, prazeroso e bonito!!
    O site merece o sucesso que vem tendo!
    Com carinho,
    Elza Mello.

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