Olhar Brasilia
Marcia Zarur

Grafite X Pichação

Eu gosto muito de grafite e acho que tem espaços na cidade que pedem uma intervenção – clamam por mais cor! Pra mim, essa entrada do Parque (na foto acima) é um dos exemplos mais felizes de como o grafite pode embelezar e dar vida a um espaço qualquer.

A arte urbana transforma a rotina e enche de cor e originalidade o caminho de tanta gente… Acho incrível quem consegue identificar esses cantinhos enfadonhos da cidade e tem a capacidade de modificá-los. Pensar no desenho, escolher as cores, criar harmonia entre a tela gigante ao ar livre e o cenário em constante movimento.

Conheci grafiteiros brasilienses talentosos nas minhas andanças durante as gravações do Distrito Cultural. Meninas que usam as imagens como expressão do feminismo. Jovens que entregam sua maior inspiração, de graça, para uma leva de desconhecidos. Artistas anônimos que aumentam a autoestima da cidade com meia dúzia de desenhos.

Grafite pra mim é arte (já escrevi sobre isso aqui: http://www.olharbrasilia.com/2017/06/16/mundez/), mas é completamente diferente de pichação. Grafite é arte, pichação é crime. Fim de papo! Quando o intuito é vandalizar e destruir, por mais que haja um recado nas entrelinhas, de revolta ou reivindicação, acho inadmissível, deplorável e condenável.

Passamos anos lutando pelo direito à livre manifestação, e não tem coisa melhor do que ver as pessoas tomando as ruas por uma causa, seja ela qual for. E, cá entre nós, ultimamente, o que não faltam no país são motivos pra protestar! Mas precisamos ter a consciência de não destruir a cidade. Nunca vou entender o que faz uma pessoa rabiscar a porta da casa de alguém ou danificar um prédio.

Participei do mutirão que pintou o Museu da República, depois de uma onda de criminosas pichações. Na foto, estou com Daniel Zukko, do Minha Brasília, um dos organizadores do evento junto com o pessoal do Urbanistas por Brasília e do Histórias de Brasília. É bem verdade que o nosso trabalho ficou pra lá de amador (rsrs), mas foi um gesto simbólico importante para a cidade que tanto amamos.

 

Todas as iniciativas de proteção da cidade merecem respeito. Algumas são solitárias, como a do João Carlos Amador, criador da página Histórias de Brasília. Ele gasta horas dos fins de semana limpando as pichações nas nossas placas de sinalização.

Admiro também as meninas do Coletivo Transverso, que espalham versos e frases criativas pela cidade. Elas escolhem os lugares certos para imprimir as palavras e suavizar o concreto. Por isso mesmo, são as autoras de uma invenção genial – a bazuca poética. Uma “arma” que projeta, com luz colorida, frases nos monumentos de Niemeyer durante as manifestações. Quando o protesto acaba, elas vão embora sem deixar nenhuma sujeira pra trás. E dão o recado de forma original, consciente e cidadã – como deve ser!

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2 Comentários

  • Reply
    André Carvalho
    28 de agosto de 2017 at 11:27

    Acho que existe um preconceito muito grande com a pixação e um interesse de criminalizar mais esse tipo de expressão urbana que é por interesse de quem faz ilegal, por conta de sua ligação com uma juventude pobre e sem acesso a outros tipos de expressão artística. Essa separação de grafite e pixação é uma coisa absurda e sem sentido e que só existe no Brasil. O grafite de verdade, o que não respeita o dono da parede e feito pelo artista sem pedir, sem se preocupar com o o olhar do dono do espaço é a mesma coisa que a pixação e tão ilegal quanto. Na verdade eu acho que chamar de grafite um mural pintado em uma parede com permissão do dono meio sem sentido, porque isso foger ao interesse inicial e intrinseco da arte urbana que é ocuapr a cidade sem se preocupar com quem seria dono do espaço ocupado. Grandes grafiteiros como Osgemeos, Zezão, Nunca, etc, não diferem sua arte de pixação, inclusive eles pixam, isso é uma questão mais ligada com noções conservadoras de arte do que realmente com quem faz arte urbana.

    No link abaixo um texto que escrevi sobre pixação que acho que a autora poderia ler, porque ajuda a desmistificar essa questão de achar que pixação não é arte e grafite é.

    https://medium.com/@ndrc/a-pixação-deve-se-tornar-patrimônio-imaterial-de-são-paulo-be273be345d5

    O grafite até os anos 90 era considerado tão ilegal, sujo, feio e fora do padrão quanto a pixação é hoje. Quando a publicidade e outras linguagens gráficas começaram a absorver o grafite o bom gosto começou a aceitá-lo. A pixação, principalmente o pixo paulistano já está entrando um pouco no design e nas artes, como mostra os trabalhos da Andrea Bandoni [1] e os trabalhos do pixador Cripta Djan [2] que está em muitas paredes, exposições e também à venda em galerias de arte. Daqui uns anos corre risco desse discurso que grafite é arte e pixação não fique velho e sem sentido por conta da absorção da linguagem. Mas eu espero que isso não role, porque uma das piores coisas que aconteceu com o grafite foi gente careta sem nenhum entendimento de arte urbana começar a gostar desse tipo de manifestação.

    Não vejo sentido algum em relativizar a arte urbana colocando uma expressão como aceitável e outra como não simplesmente por conta de conceitos conservadores e não por conta de características artísticas. Arte urbana feita sem permissão é crime, não importa o tipo de técnica utilizada. Relativizar isso é só mais uma mania decorrente da facilidade brasileira de tudo ter dois pesos e duas medidas. A pixação tem uma liguagem própria, é uma expressão jovem legítima, mas como é coisa de pobre, não é vista tão de boa como o grafite, principalmente o feito por gente branca de classe média que foi a faculdade estudar arte.

    [1] http://andreabandoni.com/Pixo
    [2] https://www.vice.com/pt_br/article/z4b7da/exposicao-pixo-cripta-djan

    • Reply
      Marcia Zarur
      28 de agosto de 2017 at 13:09

      André, é importante ressaltar que o espaço dos blogs é de opinião. Não pretendi, em momento algum, discorrer sobre os motivos sociais ou antropológicos que levam uma pessoa a pichar, tampouco quis fazer uma investigação profunda sobre o tema. O grafite de fato se incorporou ao circuito de arte, sendo exposto até em museu (veja em http://www.olharbrasilia.com/2017/06/16/mundez/) O diretor, o artista plástico Wagner Barja foi ousado em comemorar os dez anos do Museu da República com o tema. Ao mesmo tempo autorizou a pintura externa do mesmo Museu depois das pichações de uma manifestação. Só isso, pra mim, já é bastante revelador a respeito da polemica. Agradecemos a sua opinião e comentário aqui no site, que certamente enriquece o debate.

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