Olhar Brasilia

Daniel Mangabeira

Espaço convidado

Quando Brasília era Moderna

Convidado: Daniel Mangabeira é brasiliense nascido em Itabuna, arquiteto formado pela UnB em 1999, sócio do BLOCO Arquitetos e um dos criadores do @brasiliamoderna

Em defesa do que resta da boa arquitetura moderna brasileira em Brasília, muitas vezes desfigurada em reformas desrespeitosas e de mau gosto.

Brasília foi o penúltimo grande degrau na internacionalização da Arquitetura Moderna Brasileira. O último talvez tenha sido duplamente alcançado em 2006 e 2016 com o Pritzker e o Leão de Ouro recebidos pelo arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha, o maior arquiteto brasileiro vivo da atualidade. Para ele, “Brasília foi um tropeço histórico”. Sim, um tropeço político e histórico, mas não arquitetônico ou urbanístico, afinal ele reconhece a criatividade de Niemeyer nos edifícios públicos, que apesar de sua importância não serão o foco dos holofotes neste singelo relato.

A proposta deste pequeno e importante canal de comunicação será em prol da preservação da boa arquitetura produzida na cidade entre as décadas de 1960 e 1990 e não um canal nostálgico que deseja o retorno de uma arquitetura que não mais existe. É necessário preservar, recriar, reinterpretar e não repetir, plagiar ou copiar.

A preservação também inicia-se com a compreensão do significado de determinado edifício ou autor, por isso é fundamental divulgar quem são os grandes arquitetos brasileiros que construíram essa cidade além de Lucio Costa e Oscar Niemeyer: Milton Ramos, Lelé, Marcílio Mendes Ferreira, Sérgio Bernardes, Nauro Esteves, Sérgio Parada, Glauco Campelo, Matheus Gorovitz, José Galbinski, Cláudio Queiroz, Elvin Dubugras, Paulo Zimbres e tantos outros, por vezes desconhecidos fora das conversas entre arquitetos e urbanistas.

O arquiteto Marcílio Mendes Ferreira , por exemplo, foi autor de alguns dos edifícios residenciais mais bonitos da cidade, mas poucos o conhecem. Dentre os prédios que ainda são bem mantidos está o bloco D da SQS 210 projetado em parceria com o arquiteto Takudoo Takada em 1979.

A preservação deste edifício é um importante exemplo disso: nele, o piso de granitina com grandes placas de mármore está impecável e não foi trocado por um granito preto de fácil manutenção, os pilares de mármore branco nacional também permanecem intocados, a estrutura de concreto aparente não foi pintada com uma cor imitando o material e sim restaurada, seu forro metálico não foi trocado por outro de gesso, as jardineiras do Pilotis não foram retiradas e estão bem preservadas, o cobogó não foi trocado por esquadrias de vidro temperado e o mais importante: suas empenas laterais mantêm as pastilhas originais e não foram desfiguradas em uma reforma com desenhos e grafismos de gosto duvidoso.

A preservação dos materiais originais é de fundamental importância para o relato de uma época e para que esta reflexão torne-se eficaz nas muitas reformas que se aproximam em muitos endereços do Plano Piloto.

Bons exemplos de preservação vêm sendo executados em projetos muito felizes pela cidade, mas isso é assunto para um outro relato…

 

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