Olhar Brasilia

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Espaço convidado

Achtung, baby! É o Conic

Convidado: João Marcondes é jornalista e fotógrafo e tem 41 anos. Paulistano de nascimento, brasiliense de criação. Hoje tem uma loja de discos.

“Não vá no Conic. Em hipótese alguma. É cheio de maloqueiro”, disse minha mãe. Eu tinha, sei lá, uns dez anos.

Fiquei confuso. Parecia algo ruim, mau. Por covardia, evitava. Às vezes ficava olhando de longe, ali do Conjunto Nacional, da Rodoviária, terras seguras.

Nas primeiras vezes que botei o pé, tinha medo. Andava calculando os passos, admirando as pocilgas. O que eram aquilo? Residências? Na minha adolescência, em fins dois anos 80, aquilo me lembrava O Cortiço, de Álvares de Azevedo, o livro mais chocante que alguém pode ler com 14 anos. Brasília era tão limpinha. O Conic, não.

Virei metaleiro em seguida e fui fazer aula de guitarra ali, perto da Berlim Discos, onde comprava vinis e CDs. O lugar lúgubre, cheiro de alcatrão, paredes esburacadas, cinzentas, águas sabe-se lá de onde formando um minicórrego no chão, nos corredores com fiação expostas. Gatos elétricos. Gatos viralatas. De ninguém. No mundão. Brasília irreal.

Conic era assustador para uma criança adolescente.

Fui embora de Brasília. Não queria ser Pequeno Pônei, aquele personagem do Caco Galhardo. Queria o mundo de verdade, não o quadradinho inofensivo do DF.

Passo 13 anos vendo “o que sobrou do céu” na cidade de São Paulo.  Acabo em trevas e… só tem um jeito: voltar, curtido no fracasso da vida real, pra casa, pros amigos, pra família.

Volto. Porra Brasília, sua linda. Ceuzão da Porra! Feliz.

Depois de uns rolés em praias, piers e lagos artificiais, me reencontro com São Paulo no Conic. Sim, ali, a pura Praça Roosevelt. Na velha Berlim, na nossa Berlim. “Achtung, Baby!”

Brasília é linda, pura, silenciosa, idílica. Mas também pode ser chata para cacete. Careta. Brasília adora conservar. O Conic está aí para desestruturar esse pensamento “Patrimônio da Humanidade”, que, se repetido mil vezes, torna-se boçal e limitador.

Se Brasília, enquanto cidade modernista tem alguma vocação é a de desestruturar o pensamento. Seu ambiente pacífico, estável, quase zen, favorece o caos interno, a dúvida, a questão. Vide Renato Russo. Tédio com um T bem grande para você.

Hoje, ando no Conic de coturno. Passos firmes, ali encontro a gente que gosto, sem preconceito, ligada à arte, à cultura, à diversidade de ser, do SER, sem compromisso com uma vida estável, medíocre, tradicional, dependurada nos tradicionais fios imorais da política e da burocracia. Brasília tornou-se o idílio dos sanguessugas.

Ah, mas vão falar da violência. Do assassinato do garoto do Lago Sul por outro garoto do Lago Sul (o enunciado já diz tudo, não?). Não acho o Conic violento. Sequer acho Brasília violenta, como os pôneis daqui insistem em vaticinar. Basta comparar. Não adianta comparar com o passado de Brasília. Compare com outras capitais do Brasil. Compare com outras capitais da América do Sul. Ai sim é justo. Passado é passado.

Presente é futuro no Conic. Sua diversidade, palavra que às vezes é quase palavrão nos dias de hoje. Mas, nesse ponto, Brasília, não adianta conservar. O mundo, os hábitos, comportamentos, vão adiante. Pode demorar, pode ser sofrido, mas vão sim. E o avant garde acontece mesmo nas metrópoles cinzentas e na arte. Salve o Conic, nosso pedacinho cinza de metrópole. Mas, cuidado. Achtung, baby!

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Um comentário

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    Cristine Gentil
    14 de agosto de 2017 at 16:18

    Adorei, João!

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