Olhar Brasilia
Samanta Sallum

Sem café e sem banheiro

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Cenas de uma capital que espelha o contraste brasileiro. Enquanto uns não têm água no banheiro, outros pagam carro-pipa para manter o jardim florido nestes tempos de racionamento.

Quem diria, dona Brasília, que chegaríamos a esse ponto? A maior prova de que a cidade não é mais a ilha da fantasia é que a realidade se impõe de maneira alarmante. Tem gente que não percebeu ainda a gravidade da situação. A capital do país sofre com racionamento de água. A terra da prosperidade, nosso eldorado, está à base do conta-gotas. O simples e tradicional programa de ir tomar um café com os amigos pode ficar inviabilizado hoje em dia. 

Dia desses, fui encontrar uma amiga brasiliense que mora há alguns anos nos EUA. Ela tinha marcado o café na 106 Sul sem saber que naquele dia havia racionamento de água na região. Como eu moro na Asa Norte, confesso que fico em alerta para o calendário da minha área. Éramos cinco amigas loucas para bater papo regado a cappuccinos, no fim da tarde, numa deliciosa casa de guloseimas. Nada de cappuccinos, e depois também nada de café! O garçom, sem graça, dizia “não dá para sair hoje, estamos sem água”. 

Ops! Tô apertada!

Água mineral de garrafinha tinha. E depois de tomar várias para driblar o tempo seco, as moças querem ir ao banheiro. E ele está interditado. Ops! O que a gente faz?! Fica apertada, apressa a conversa, se despede e procura o lugar mais próximo que não tenha sido atingido pelo racionamento. Detalhe: bem atrás do comércio, um caminhão-pipa jorrava água regando as flores do jardim de um prédio.

Eu penso nas dificuldades ainda muito piores de quem não vive no Plano Piloto, que é a região com mais estrutura da cidade.

No salão de beleza das quadras comerciais do Plano Piloto, já a vi a cena de cabeleireiros lavando a cabeça das clientes com cuia. A manicure comentou fazendo graça: ‘Quem diria que eu veria essas coisas aqui na capital. Me lembra meus banhos de cuia lá no interior do Maranhão’, dizia ela, espantada, vendo ‘as madames’ apelando ali para a cuia e a água de balde para lavar os cabelos.”

Todo dia, escuto alguém comentar sobre algum transtorno na rotina por causa da falta de água: de jantares românticos em restaurantes chiques que foram um fiasco a colegas que chegam ao trabalho com barba por fazer, atônitos, porque foram surpreendidos com a falta de água em casa. O sentimento dos pais em doarem sua cota de água em casa para dar mais conforto aos filhos. 

As causas da falta de água em Brasília ainda são polêmicas. O que fez nossos reservatórios estarem num nível tão baixo para provocar o racionamento? Falar em pouca chuva é resumir o problema de forma superficial. Não foi apenas pouca chuva. Um debate que se deve aprofundar. Falta de planejamento, desordenamento urbano… Questionada, a Caesb informou ao Olhar Brasília que não há previsão pra o fim do racionamento. Mas o fato é que a situação nos serve de alerta, para cairmos na real. De assumirmos a responsabilidade do futuro da nossa cidade. Que os recursos naturais devem ser preservados e que a conta do desperdício pode chegar a um ponto que dinheiro nenhum pagará ou conseguirá reverter. Confira o calendário de racionamento da sua região no site abaixo:

https://www.caesb.df.gov.br/

PS – Apesar dos pequenos transtornos da falta de água , eu amei te ver Fabiana Santos ! E estar com nossas queridas Alessandra Roscoe, Cristiane Sales e Márcia Zarur. 

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2 Comentários

  • Reply
    Fabiana Santos
    7 de agosto de 2017 at 11:13

    Querida Samanta, nosso encontro foi muito especial. Prova que Brasília tem dessas coisas: amizades que o tempo não faz secar. Que a água da cidade que eu amo volte ao normal, ao mesmo tempo que o povo saiba usá-la de forma consciente. Bj grande.

  • Reply
    Marcela Mihessen
    14 de agosto de 2017 at 13:19

    Samanta, e ainda teve o absurdo de gasto de água do Estádio Mane Garrincha! Misto de gambiarra e funcionários preguiçosos! Eu fico revoltada com isso!

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