2 de março de 2021
Olhar Brasilia
Espaço convidado

Templo do underground brasiliense

Convidado: Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da revista Se7e. Também escreve textos de cultura e ficção em seu blog pessoal, o TijoloOBlog (www.tijolooblog.wordpress.com). Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Recentemente, mais um crime chocou a cidade. No começo da manhã de um domingo, 2 de julho, um jovem de 23 anos morreu baleado no Conic. Inaugurado no fim dos anos 60, esse célebre centro comercial brasiliense já viveu altos e baixos. Apesar da triste ocorrência, nos últimos tempos, o local parece se revitalizar, com a realização frequente de eventos culturais em sua praça interna.

Não peguei os dias de glória do Conic, que os mais antigos em Brasília dizem que aconteceram na década de 60. O Conic que eu descobri, nos anos 80, estava na transição entre os momentos áureos e a decadência. Ainda havia o saudoso Cine Atlântida, que exibia os lançamentos de Hollywood; alguns fast-foods e comércios interessantes, como uma loja especializada em livros e discos de música clássica. Não podemos nos esquecer ainda da Faculdade e do Teatro Dulcina, criados pela atriz Dulcina de Moraes, em 1972, e que se tornaram um polo de referência para as artes cênicas no Planalto Central.

No entanto, já na década de 80, proliferavam no Conic bordéis disfarçados de saunas e casas de massagem, cinemas pornôs e boates de strip, dando um clima down ao lugar. O golpe de misericórdia veio nos anos 90, quando cinemas como o Atlântida se transformaram em igrejas, o que foi contra a concepção original da área, batizada de Setor de Diversões Sul, com destinação a comércio, cultura e lazer.

O grande foco de resistência do Conic permanece em sua eterna vocação underground. Se os paulistanos dispõem da Galeria do Rock, os brasilienses enxergam nesse quadradão em sua região central um oásis para o qual convergem as tribos: metaleiros, punks, rappers, regueiros, skatistas, o pessoal do indie rock, a rapaziada da black music, a turma da música eletrônica e várias outras que formam a Conic Youth (Juventude do Conic, em um trocadilho com a banda americana Sonic Youth).

No Conicão, coexistem em harmonia símbolos da cultura alternativa do DF, como lojas de discos e de camisetas. Caso da Berlin Discos, criada em 1989 por Reinaldo Freitas, que deixou o Banco do Brasil para se dedicar à venda de CDs e LPs. Ou a Kingdom Comics, espaço para apaixonados por camisetas pop, jogos como RPG e quadrinhos. A Kingdom nasceu em 1996, como um pequeno quiosque aberto por Marcos Maciel e pelo mago das t-shirts, Natinho. Em 2007, Marcos deixou a sociedade, sendo substituído por Raimundo Lira e Gabriel, que contribuem para manter acesa a chama independente no Conic.

A vocação rock’n’roll coniqueana se reafirma com recentes eventos realizados ali, como feiras enormes com quadrinhos, fanzines, camisetas, discos de vinil, literatura, cerveja artesanal, gastronomia e shows. Até o Teatro Dulcina entrou no circuito, recebendo roqueiros de renome internacional, como a banda Radio Moscow e Lee Ranaldo, ex-guitarrista do Sonic Youth.

O público comparece em peso a essa programação e dá sinais de que existe esperança de que um dia aquela área se torne, exclusivamente, um setor de lazer e cultura, conforme o projeto original. Porém, há que se melhorar, por exemplo, a segurança. Quando você sai à noite do Conic, após esses eventos, se depara com estacionamentos mal iluminados e sem policiamento. Outro dia, um amigo meu encontrou seu carro, estacionado na frente do centro comercial, com os vidros quebrados.

O Governo do Distrito Federal bem que podia dar uma mão nesse processo de revitalização, até agora a cargo dos empreendedores do Conic, gente brava e resistente.

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