Olhar Brasilia
Espaço convidado

A Faixa

Convidado: David Duarte Lima é professor da UnB, preside o Instituto de Segurança no Trânsito e foi Coordenador do Fórum pela Paz no Trânsito.

Ninguém acreditava naquilo. Um maluco falando coisas completamente inverossímeis no Fórum pela Paz no Trânsito. Eu presidia a sessão e a cada instante vinha alguém do governo e da sociedade argumentando “o Coronel Azevedo pensa o quê? Acho que ele simplesmente pirou. Aqui é Brasil”.

Com sede na Universidade de Brasília, o Fórum nasceu depois de uma caminhada pela Paz no Trânsito em setembro de 1996 que mobilizou mais de 25 mil pessoas. A criação do Fórum tinha como objetivo encontrar caminhos para diminuir a violência no trânsito. Mais de 80 instituições participaram dessa iniciativa: igrejas, sindicatos, associações profissionais e de empresários, GDF, imprensa, universidades e faculdades, ciclistas, associação de pedestres, voluntários.

Naquela época o trânsito de Brasília tinha fluidez, mas era muito violento! Em 1995, 10% de todas as mortes ocorridas no Distrito Federal aconteceram no trânsito, proporção muito acima de qualquer cidade do Brasil ou do mundo.

Buscávamos ideias, propostas, ações para reduzir a violência no trânsito, mas algo verossímil, factível, racional. Aquela proposta do Coronel Renato Azevedo era simplesmente inverossímil, infactível, irracional. Ele propunha respeito ao pedestre! “Na faixa, o carro vai ter de parar para o pedestre passar”, dizia ele.

Ainda vigia o velho Código Nacional de Trânsito, promulgado em 1966. Tinha um artigo lá que, na faixa, estabelecia a preferência do pedestre sobre os carros. Sempre foi solenemente ignorado. Aliás, até hoje boa parte do Código de Trânsito parece ser apenas sugestões aos motoristas: obedece quem quer. “A lei, ora a lei…”, profetizou Getúlio Vargas.

Eu também não acreditava na proposta, achava um exagero. Seria um salto muito grande. “Azevedo, você está louco. Vou colocar em votação no plenário do Fórum, mas se prepare porque virá paulada de todo lado. Ninguém acredita nisso. Eles pensam que você é lunático”.

Com mais de cem pessoas presentes, a pauta principal naquele dia era a faixa de pedestres. Homem de ação, Azevedo transformou-se no tribuno. Estava inspirado. “A faixa é o lugar sagrado dos pedestres no trânsito. O motorista em Brasília vai ter de parar para o pedestre passar”. Sua determinação e fé contagiou quase todos. Porém, os céticos ainda duvidavam: “O homem é realmente louco. Aqui é Brasil”.

A primeira inscrita para falar era uma psicóloga. “Vai ser um festival de batidas. Não vai sobrar um para-choque inteiro em Brasília”, disse ela. “Que se danem os para- choques. Eles servem para isso. O que não se pode é bater nas pernas dos pedestres”, contestou Renato Azevedo. E ninguém mais abriu o bico. A loucura foi aprovada por unanimidade.

Azevedo escolheu o dia 1o de abril de 1997 para começar a valer a Lei da Faixa. “Nós vamos desmoralizar o Dia da Mentira. As leis de trânsito precisam ser de verdade”.

Havia anos o jornalista Alexandre Garcia pregava Paz no Trânsito nos telejornais da Globo. Ele embarcou de corpo e alma na loucura da faixa! O Correio Braziliense, também protagonista nessa história, não deu espaço a dúvidas. Fez sucessivos editoriais e começou uma contagem regressiva para o “Primeiro de Abril”. O Diretor-Geral do Detran à época, Luís Miúra, transformou o órgão técnico- burocrático em um departamento em prol da vida. Contando com a credibilidade inquestionável desses aliados, Azevedo venceu. A população acreditou e abraçou imediatamente a conquista!

No Primeiro de Abril de 1997 Brasília ganhou mais um ponto turístico. Lembro- me de um amigo que de Belo Horizonte que estava em Brasília e ficou encantado com a novidade. “É verdade! Os carros param!” Ele passava desnecessariamente dezenas de vezes pelas faixas para ver os carros pararem. Sentia-se no Primeiro Mundo!

No primeiro ano de funcionamento da faixa houve 40% menos mortes de pedestres. Uma redução expressiva! O respeito ao pedestre mudou a cidade! Azevedo nos legou o “lugar sagrado do pedestre”. A cidade ficou ainda mais bonita. É um privilégio caminhar entre obras de Oscar Niemeyer, Athos Bulcão, Burle Marx, Lúcio Costa e Renato Azevedo.

“Aqui é Brasília”!

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