19 de outubro de 2019
Olhar Brasilia

Zuleika Souza

Samanta Sallum

Nossa história nas banquinhas de jornal

­Qual será o futuro de nossas banquinhas de jornal? Será o mesmo das lojas de CD, que no mundo virtual faliram por causa da concorrência com a internet? Mais uma banca da Rodoviária do Plano Piloto vai fechar. Das três que existiam, vai sobrar apenas uma.

Quantas histórias habitam uma banquinha de jornal… Não somente as contidas nas publicações à venda, mas nas que se criam e realizam naquele ambiente, naquele entra e sai de gente.

Na banca, trocamos figurinhas em todos os sentidos. Sempre rola um papo sobre política , futebol, o calor do dia , o preço da gasolina …  Rola piada , desabafo , fofoca.

Banquinha, padaria , salão de beleza e barbearia servem de intersecção urbana,  onde estranhos e vizinhos se cruzam e compartilham o que está rolando na cidade. 

As banquinhas de jornal  sobrevivem com dificuldade. Tentam se reinventar, oferecer novos produtos, atrativos e serviços. Mas muitas não estão resistindo.  Depois da Brasiliana, chegou a vez de a Bacana se despedir da plataforma inferior da Rodô. Vai dar lugar a uma lanchonete Subway.

A mais antiga delas, a Banca Rodoviária, na plataforma superior, aberta das 6h às 22h, ainda promete resistir. O dono, seu Samuel, de mais de 90 anos, e a família  continuam a fazer a história da Rodoviária e da cidade.

Certas publicações só achávamos lá naquelas bancas. As de melhor acervo, as mais completas.

Que as banquinhas e livrarias que restam na cidade consigam se manter, mais do que pontos comerciais, como locais de experiência de vida real. De degustação do palpável, concreto, sinestésico. Quando uma banquinha fecha, um pedacinho da cidade morre junto…”

As bancas da Rodoviária são parte da rotina de milhares de brasilienses que circulam por lá.  Uma delas foi protagonista da história de um ex-morador de rua que, aos 18 anos,  lá começou a folhear livros e jornais e se entusiasmou pelo estudo. Hoje, Wallisson dos Reis, 30 anos, é aluno de faculdade de Direito e estagiário em uma repartição pública. 

Outra referência na cidade, que resiste graças ao idealismo e amor da dona, a jornalista Conceição Freitas, é a banca da 308 Sul. É um ponto de encontro que reúne todos os que amam, pensam e defendem Brasília. Lá, ocorrem os deliciosos sábados temáticos, com lançamentos de livros, cafezinho, rodas de conversa fiada, criativa, intelectual, cultural ,  enfim , para todos os gostos.

Ao lado da Igrejinha , é um lugar que encanta turistas com seu  charmoso e variado acervo sobre Brasília , de publicações a souvenieres. Mas que não é tão conhecido por  nós brasilienses .

Essas iniciativas deveriam receber mais apoios e incentivos, pois têm como produto mais precioso a preservação da nossa memória e a síntese da vida de quadra, da vida comunitária, de vizinhança.  O que torna a cidade viva e interligada .

Que as banquinhas  da cidade consigam se manter, mais do que pontos comerciais, como locais de experiência de vida real. De degustação do palpável, concreto, sinestésico. Quando uma banquinha fecha, um pedacinho da cidade morre junto…  

 

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2 Comentários

  • Reply
    Marcelo Marques
    2017-09-19 at 21:47

    Sim, as bancas estão fadadas a encerrarem suas atividades. Cresci neste meio, meus pais tinham banca de jornal. Aprendi muito na banca, lia tudo que aparecia, vendi jornal na feira, colecionei figurinhas e gibis da Marvel. Adorava quando chegava o final do ano e as pessoas ficavam loucas atrás do Guia 4 Rodas para planejarem suas viagens. E quando a Playboy trazia a sensação do momento a revista esgotava em pouco tempo.
    Viviamos achando ruim quando as editoras e os jornais investiam mais nas assinaturas, a sorte que eles não tinham competência para entregar os exemplares e muitos fregueses preferiam buscar a revista e o jornal na banca.
    Mas aí veio a era da informática…
    Revistas e jornais você lia nos computadores e posteriormente nos smartphones. Playbou tornou-se uma revista comportada visto a quantidade de pornografia que invadiu a rede e o GPS, primeiro nos aparelhos próprios e depois nos celulares, destruiram o Guia 4 Rodas.
    As bancas de jornais ficarão nas nossas lembranças.

  • Reply
    Paulo Mendonça
    2017-10-25 at 00:00

    Na realidade a banca de jornal foi inventada para ser um ponto de encontro e troca de informações comunitária. Porém, a pressão – até política – para transformá-la em um ponto de vendas de produtos e/ou em um quiosque qualquer a tornou em nada. É verdade que é possível reabilita-lá, mas o permissionário, alguns não. Implantou-se o ponto do ócio, muitas vezes de contravenção. Conheço de perto o jogo de interesse existente.

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