Olhar Brasilia
Marcia Zarur

Nova esperança de uma Brasília sem grades

Sempre que vejo as imagens que o fotógrafo Luis Humberto captou da nossa cidade, eu me lembro de que Brasília é, antes de tudo, feita de gente. E uma das coisas mais deploráveis dos últimos tempos são as grades que querem justamente apartar a cidade da sua gente.

Essas grades, em volta dos prédios de Niemeyer, na Praça dos Três Poderes, e as que cercam o Palácio do Buriti, são aberrações que ferem a concepção da monumentalidade de Brasília e ferem o princípio mais poético do plano de Lucio Costa, que é garantir a liberdade.

Liberdade que o pedestre tem de escolher o caminho que quiser. Por isso, nossos prédios são erguidos sobre pilotis, e a área embaixo dos blocos é pública.

Pública, sim, mas não no conceito distorcido e cruel que o brasileiro ultimamente resolveu adotar – o de que o público não é de ninguém. O público é meu, é seu, é dos moradores e dos visitantes. É de todos nós. Precisamos nos apropriar e cuidar!

Antigamente, as crianças podiam escalar as colunas do Supremo Tribunal Federal e a cúpula do Senado. São lembranças vivas e lindas da Brasília da minha geração, como mostram essas incomparáveis fotos de Luis Humberto.

Já escrevi sobre a minha profunda tristeza com essas grades, que estão fixas nos nossos cartões-postais desde 2013 (leia aqui o post Brasília atrás das grades) e volto ao assunto hoje porque agora o Ministério Público Federal entrou na briga, a favor dos cidadãos. 

Fez uma recomendação oficial ao Supremo Tribunal Federal e às administrações dos palácios do Planalto e da Alvorada para que retirem as cercas metálicas, que só poderão ser recolocadas em casos excepcionais e temporários, quando a segurança das pessoas ou do patrimônio público estiver comprometida.

Viva! Uma nova esperança. Viva! Uma voz de bom senso no meio do silêncio ensurdecedor dos órgãos que deveriam zelar pelo nosso patrimônio…

PS: aproveito o espaço para ressaltar, mais uma vez, a importância do trabalho de Luis Humberto, que sabe retratar, com sensibilidade e um olhar único, a Brasília humana, e as inúmeras facetas dessa cidade ímpar.  No início do ano que vem, tem exposição de Luis Humberto no Museu da República. Enquanto essa nova mostra não chega, recomendo a leitura do livro Do lado de fora da minha janela, Do lado de dentro da minha porta, que tem na capa essa foto do STF em destaque no meu post. Não é de encher os olhos?

 

 

 

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