Olhar Brasilia
Marcia Zarur

Cabeça, tronco e rodas?

Estou de férias, curtindo um descanso merecido. Mas, quando a gente viaja, especialmente pra fora do Brasil, é um bom momento para ter um distanciamento maior do nosso dia a dia e enxergar a realidade da cidade com um pouco mais de clareza.

Brasília, diferentemente do que muitos dizem, não foi projetada pensando apenas nos carros. Na primeira ideia, a cidade se resumia ao Plano Piloto, e acreditava-se que as asas do avião abraçariam todo mundo. As satélites vieram depois, numa história de segregação e resistência, que definitivamente não estava nos planos iniciais…

Teríamos carros, sim, mas poucos, pra atender uma população com, no máximo, 500.000 habitantes no ano 2000. Na Brasília utópica, eles rodariam em vias largas, sem sinais de trânsito ou engarrafamentos.

O ministro moraria nas quadras 300 e o motorista do ministro nas 400. Os filhos de ambos estudariam na mesma escola, e as famílias seriam atendidas em suas necessidades básicas pelo comércio local, podendo fazer tudo a pé ou de bicicleta. A Unidade de Vizinhança deveria abarcar, além do mercado, padaria e farmácia, igreja, clube e escolas. Tudo pertinho, coletivo, com a tônica comunitária e privilegiando o contato entre as pessoas e a vizinhança. Ah, a utopia…

Mas a realidade suplantou o sonho e muita coisa saiu dos eixos. Talvez uma das mais cruéis seja a nossa dependência do carro. Falta transporte coletivo de qualidade, como diz o professor David Duarte Lima, que preencha os três requisitos básicos: segurança, pontualidade e conforto. E no exterior a gente sente uma inveja dos VLTs, que ligam todas as partes da cidade e não atrasam nem um segundo! E que vão complementando as rotas dos ônibus e do metrô, atendendo maravilhosamente bem a demanda. 

Além dessa diferença abissal no transporte coletivo, a gente percebe como no Brasil nos falta uma consideração maior com os ciclistas e os pedestres. Pelo menos em Brasília avançamos muito com o respeito às faixas, mas ainda estamos longe de sermos cordiais e amigáveis com quem escolhe caminhar ou andar de bicicleta.

O Poder Público precisa investir mais em ciclovias e não abandonar as calçadas, ou restos delas, à própria sorte. E nós motoristas também temos a nossa parcela de descaso quando não guardamos a devida distância dos ciclistas e não pensamos em quem caminha. Somos todos pedestres e ciclistas em algum momento. E preservar a vida é sempre o mais importante. 

Precisamos ser mais coração, sensibilidade e respeito; e menos cabeça, tronco e rodas!

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