17 de novembro de 2017
Olhar Brasilia

fotos do arquivo pessoal de Leiliane Rebouças

Espaço convidado

Olhar Brasília – Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê

Convidada: Leiliane Rebouças é moradora da Vila Planalto, integrante do Movimento Urbanistas por Brasília e uma observadora atenta de cada detalhe da cidade.

Desde os tempos da Grécia Antiga, o ser humano filosofa sobre o “olhar” e o “ver”: Por que vemos certas coisas e não outras? As pessoas só veem o que querem? O que determina o nosso olhar sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre os acontecimentos, sobre a cidade? Por que é mais comum ver o geral e não o específico? O todo e não a particularidade? Por que o que eu vejo passa despercebido para você e para a maioria das pessoas?

Gosto muito de caminhar pelas ruas de Brasília e quando tenho bastante tempo disponível faço longas caminhadas observando a paisagem, atenta ao que me rodeia. Em uma dessas caminhadas, no centro de Brasília, percebi que alguém estava reformando (melhor seria dizer deformando) o antigo prédio do Touring Club, que foi concebido pelo urbanista Lucio Costa para ser uma Casa de Chá, obra de Oscar Niemeyer, na área tombada. Ao ver a destruição, fiquei perplexa e mais ainda ao descobrir que implantariam naquele espaço cultural uma igreja evangélica. Nada contra as igrejas, apenas ali não é, pelo planejamento urbanístico, local de templos religiosos. Então, procurei o arquiteto Carlos Magalhães, braço direito do Oscar Niemeyer, e nosso amigo Silvestre Gorgulho, e, juntos, mobilizamos os amigos, como a prefeita do Conic e todas as redes sociais para denunciar a destruição do prédio e proteger o nosso patrimônio.

Nesse episódio, uma coisa chamou a minha atenção: como ninguém havia visto e percebido a destruição de um prédio histórico na plataforma superior da Rodoviária de Brasília? Nem mesmo os órgãos competentes de fiscalização atentaram para o crime ocorrido ali contra o tombamento da cidade!

Há um longo tempo, observo as mudanças na Rodoviária do Plano Piloto, nessa reforma interminável iniciada no governo passado, que já consumiu em torno de 27 milhões de reais dos cofres públicos e deveria ter sido entregue pronta em 2016. O mármore original foi completamente quebrado e trocado por um outro bem diferente e brilhoso. Me pergunto se os técnicos do patrimônio acharam aquilo necessário… Será que não bastava a limpeza por jateamento e a troca dos mais avariados? Por que trocar o mármore, que é uma pedra resistente, quando não está quebrada? Fica o questionamento para o Ministério Público, já que o princípio da economicidade parece não ter sido respeitado nessa obra. Aliás, falando nisso, não economizaram no mármore, mas, no piso… Quem observar a área reformada verá um piso novinho, porém com o piso táctil para deficientes visuais completamente velho e carcomido. Seria por economia? Alguém viu isso? Os fiscais observaram? O usuário da Rodoviária percebeu? Os políticos? A imprensa?

Outra observação, quem vai à Rodoviária hoje não tem onde se sentar porque nessa reforma tiraram todos os bancos próximos aos boxes dos ônibus. Idosos, pessoas com crianças, deficientes ou trabalhadores cansados da labuta são obrigados a esperar por horas o transporte em pé. E aquela pintura de tinta branca no Buraco do Tatu? Por que aquilo depois de terem passado a tal tinta lavável? Não viram como está horrível? Por que o que eu vejo quase ninguém vê?

Quando caminho, eu observo e sinto a cidade, ouço os barulhos e os silêncios, observo de longe e de perto os detalhes: a casinha de um joão-de-barro ali numa árvore, a rachadura na calçada, os buracos no asfalto, na calçada, no teto; o urubu que pousa no alto de um prédio ou nas varandas, os locais com lixo e entulho, os tipos de árvores… Sei onde encontrar caju no campus da UnB, ensino atalhos para os motoristas de Uber e taxistas mesmo sem eu ser motorista, minhas amigas do mestrado costumavam dizer que sou melhor do que GPS, e um amigo diretor de TV diz que eu deveria ser pauteira (pra onde envio o currículo? Kkkk)… Tudo porque observo bem a cidade, converso com as pessoas na rua, no ônibus, no táxi, no Uber, na feira…

Quando você observar os lugares sem se dispersar com os diversos estímulos visuais e auditivos, quando você olhar a cidade sem uma percepção automatizada pela rotina do dia a dia, sem medo de estar ganhando ou perdendo tempo ao caminhar pelas ruas sem a pressa dos automóveis, esse exercício do olhar te fará refletir, pensar, e então você será capaz de interpretar o que você vê, você terá uma visão apurada, disciplinada para enxergar, terá uma visão crítica sobre a cidade.

Essa forma particular que eu tenho ao olhar Brasília faz com que tenha uma imensa dificuldade de escolher em quem votar para me representar na política. Penso que o político encastelado em seu gabinete, que só caminha nas ruas em ano eleitoral, que conhece os problemas da cidade pelos jornais e blogs, que faz visitas rápidas nas cidades apenas junto dos correligionários, que não vai à paisana num hospital público, nem mesmo é atendido na rede pública; o político que visita as feiras e a Rodoviária apenas de 4 em 4 anos para posar para a foto com crianças e comer pastel querendo se passar por cidadão comum, que nunca anda de ônibus, esse não pode ter o meu voto porque ele não vive a cidade de verdade. Ele não olha Brasília! Olhar também é sinônimo de cuidar, proteger. Se ele não vê, não enxerga, como posso dizer que cuida?

Quando estou numa feira ou na Rodoviária, pergunto aos comerciantes: Você viu algum político por aí? Nunca vi nenhum fora do ano eleitoral, mais fácil achar um alienígena!.

“Só quem ama as ruas é capaz de por elas se perder e descobrir os seus segredos”, assim disse uma antropológa da Universidade da Bahia em um artigo que eu li… Ela está certa, quem ama a cidade não tem um olhar indiferente sobre ela.

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8 Comentários

  • Reply
    Tânia Battella
    17 de novembro de 2017 at 09:03

    Leiliane, quero parabenizá-la pela capacidade de expressar sua sensibilidade e amor pela nossa cidade. Só quem conhece, mesmo, protege. É só quem protege , ama. Seu olhar é de amor à cidade, é de cidadania.

  • Reply
    FREDERICO FLÓSCULO
    17 de novembro de 2017 at 12:06

    Lindo texto de uma completa e combativa Brasiliense! Excelente escolha, OLHAR BRASÍLIA!

  • Reply
    Eduardo
    17 de novembro de 2017 at 16:19

    Belo texto! Moro em Belo Horizonte, mas em 2018 estarei de mudança para Brasilia. Como posso ajuda-las nestas batalhas de preservação de nosso patrimônio?

  • Reply
    Hélvia Paranaguá
    18 de novembro de 2017 at 07:30

    Parabéns Leiliane por ter o olhar voltado para a preservação de nossa capital da República e mais ainda, por lutar por ela.

  • Reply
    Jacqueline Mesquita
    18 de novembro de 2017 at 12:03

    Parabéns Leiliane tudo que vc relatou confirma a sensibilidade de um olhar com pelo menos duas caracteristicas, a de quem ama essa cidade e de quem se preocupa!

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    Julia dos Santos Baptista
    18 de novembro de 2017 at 14:27

    Parebens querida Leiliane pelo seu capricho e cuidado com nossa casa Brasília. Apesar de tds as dificuldade vc continua denunciando e mobilizando para que nossa Brasília continue uma casa para todos nós. Abraço fraterno. Júlia

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    Durcemar Martins
    19 de novembro de 2017 at 16:43

    Ótimo texto, compartilho deste sentimento que leva a pensar, como quem deveria ver algo errado, não vê. Desde o meio fio “banguela”, que é como um amigo chama as sarjetas completamente deterioradas, que estão em todos locais, até o que seria “novo”, como as bolotas de concreto instaladas nas calçadas do SCS, as quais são inúteis, antiestéticas e até perigosas em tempos nos quais as pessoas andam digitando no celular. O dinheiro público, que hoje dizem ser curto, é extremamente mal aplicado. E com isto, esta cidade ímpar vai ser desmanchando em mãos incompetentes e insensívelis. Pena.

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    Leiliane Rebouças
    24 de novembro de 2017 at 14:56

    Obrigada pelos elogios, meus amigos e amigas ! Eduardo, me inclua no Facebook e eu te explico!

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