Olhar Brasilia
Espaço convidado

Crônica da Era do Vinil

Convidado: João Marcondes é jornalista e fotógrafo e tem 41 anos. Paulistano de nascimento, brasiliense de criação. Hoje tem uma loja de discos.

Ao ver Pablo pela primeira vez, Mariana quase deixa a bola de sorvete de morango cair da casquinha. Ele desce da camionete S-10 cabine dupla do pai que o deixa para o primeiro dia de aula no colégio Sigma, da 912 Sul. Rocker, cheio de atitude, com um jeans apertado, casaco de couro, cabelo meio comprido. Vem transferido de São Paulo e ainda não tem o uniforme verde e branco do colégio. Estamos na oitava série.

Mariana, a atual Miss Sétima Série, uma ruiva de gélidos olhos azuis, invocada, é conhecida por não dar moral para ninguém. Mas… o forasteiro Pablo, com seu violão e incrível coleção de discos que inclui Nirvana, Joy Division, Ramones e The Clash, torna- se rapidamente objeto de cobiça das garotas do colégio. Dessa vez, Mari não descansa em seu costumeiro ar blasé. O boy é seu. Pablo não resiste e tornam-se namoradinhos da oitava série. Dos mais apaixonados, ícones na escola.

“Não vai durar, são muito bonitos”, era fofoca no Sigma. Mas, incrível, aquele namoro inocente foi crescendo, atravessou os libertinos tempos de faculdade, até que se casaram. Mari tornou-se arquiteta, mas especializou-se em projetar móveis incríveis, criativos, caríssimos. Pablo tornou-se servidor da Câmara Federal, cresceu uma barriguinha de cerveja artesanal e perdeu cabelos, muitos.

O que também cresceu foi a coleção de vinis do sujeito. Avançou as 1500 unidades, com raridades de jazz, blues, música brasileira. Um brinco, sua paixonite. No aniversário de 40 anos de Pablo, Mari resolveu fazer sua obra prima. Um armário de madeira maciça, vidros fumês, cheio de compartimentos secretos, portas acessórias, tudo projetado especialmente para os discos e a coroação do amor de ambos.

Mas… sim. Pablo foi capaz de trair aquela antiga e sólida história de amor, num happy hour em um boteco pé sujo com uma colega de trabalho, um típico esporte brasiliense. Desajeitado, mal conseguiu disfarçar ao chegar às quatro da manhã com o cheiro de outra mulher no corpo. O que esperar de Mari?

Sua reação foi de fúria total. A artista de coração sensível, capricorniana, promoveu um último gesto de grande carga dramática. Trancou todas as doze portas e portinholas do armário, com os discos dentro. Colocou ainda uma sequência de cadeados de oito cadeados. Pegou a lancha de uma amiga e jogou as 32 chaves (cópias inclusas) nas profundezas do Lago Paranoá. Pablo nunca mais viu sua coleção de discos, emagreceu, adoeceu e nunca mais teve um grande amor.

Por que vinil?

Parece mentira, mas histórias como a de Mari e Pablo, são contadas com grande frequência nas bancas de vinil ao longo de eventos como Feira de Vinil do Conic, que acontece nesse sábado, dia 25, a partir das 9 da manhã.

Quem há muito largou os bolachões para se valer apenas da música digital, streaming, às vezes estranha. Por que o vinil voltou com força total? Moda? Fetichismo? Na verdade, vai além disso. Eu diria que a experiência de ouvir discos é bem diferente de ligar o spotify. E essa experiência de ouvir vinil jamais, em qualquer tempo, será reproduzida digitalmente.

O vinil e a vitrola são dois elementos que compõem uma “caixa mágica” analógica. A partir do momento em que o disco começa a girar com seu chiado ao fundo, o ouvinte pode ser transportado para um inferninho do jazz nos anos 20 americanos. Para uma ópera de Wagner em plena Alemanha do século 19. Para uma gafieira carioca dos anos 70. Para sua infância no parquinho da escola. Para seu grande amor dos 14 anos. É uma máquina do tempo.

Além disso, o vinil faz com que seu ouvinte “perca tempo” com aquilo. Para trocar de lado, ler o encarte, admirar a foto. Cria um vínculo afetivo, emocional, dramático com a música. Retarda o tempo tão acelerado dos dias hoje. Te faz mergulhar, imergir e escapara da cruel relação tempo e espaço da contemporaneidade.

Nada contra o streaming, mas ele é bom para ouvir nos fones de ouvidos enquanto você anda na esteira da academia. Onde está a emoção disso? Sim, o vinil voltou. Na realidade ele nunca deixou de ser, pois é uma das invenções mágicas mais apaixonantes do ser humano.

Não perca a chance de conhecer esse mundo maravilhoso. Este sábado, dia 25, tem Feira de Vinil do CONIC, das 9h às 19h, na Praça Central. Garimpe sua felicidade nesses antigos e hipnotizantes objetos.

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