Olhar Brasilia
Espaço convidado

Porão do Rock aberto

Convidado: Celso Araujo, jornalista desde os meados da década de 1970 , trabalhou no Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Rádio Nacional e atualmente integra a equipe da Rádio Cultura.

O Porão do Rock germinou nos subsolos de um bloco comercial na 207 Norte, onde ensaiavam intensa e intensivamente as bandas de rock que surgiram como em geração espontânea nos anos 1980. Aquele porão fervia de gente talentosa, estudantes de música, garotos e garotas autodidatas, num sobe e desce, entra e sai das salas de ensaio que parecia um verdadeiro baile de punks, instrumentistas, cantores, vocalistas, assistentes, técnicos de som, donos de estúdio.

O Porão do Rock esquentou tanto que em 1998 explodiu e se tornou o mais importante festival do gênero/atitude/sonoridade do Centro Oeste, um dos pioneiros entre os festivais independentes do Brasil.

Um cara que é a cara de grande parte da memória desses 20 anos de história do Porão do Rock é o jornalista, radialista, locutor, programador, DJ e máquina pra toda obra Marcos Pinheiro, carioca que chegou aqui com 16 anos de idade, porque a família foi transferida. O interesse pelo rock no Rio de Janeiro já estava instalado, mas se inflou quando Marcos Pinheiro começou a partir de 1984, como aluno da Comunicação da Universidade de Brasília, a saber pelos colegas do campus das novidades que corriam na cidade. Era da mesma turma de nomes como Mário Salimon, Gustavo Vasconcelos, Militão, todos já engajados com suas bandas e projetos.

A primeira constatação do diferencial do rock brasiliense para Marcos Pinheiro se deu quando foi ao show da Legião Urbana na Sala Funarte, hoje Sala Cássia Eller, atrás da Torre de Televisão, abrindo para um show de Cida Moreira. Marcos concluiu o curso na UnB em 1988. Três anos depois, em 1991, estava à frente, com o colaborador inicial Carlos Marcelo, do programa Cult 22. Ia ao ar às 10 da noite das sextas na Rádio Cultura e assim prossegue até hoje, com uma equipe entusiasmada. Logo, as bandas locais sacaram que esse era o espaço para veicularem suas gravações, estreias, entrevistas e divulgação.

Marcos Pinheiro se deu conta em definitivo do vigor e da efervescência do que chamamos hoje de rock brasiliense (virou slogan o Brasília Capital do Rock) em 1985, quando foi ao show das bandas Legião Urbana, Plebe Rude e Ultraje a Rigor no Ginásio de Esportes. Uma das diferenças, além da ferocidade sonora: as letras explícitas sobre os podres poderes, algo parecido com o que as bandas paulistanas estavam praticando: escancaração.

Ele não esteve próximo da primeira leva de bandas que assaltaram os ouvidos da rapaziada de todos os lugares, como Plebe, Legião e Capital. Marcos era visto e reconhecido por todos em encontros rápidos, mas numa fornalha seguinte, foi amigo e colaborador de bandas como Escola de Escândalos, Detrito Federal, Raimundos, Little Quail, Pravda, Low Dream e dezenas de formações de originalidade e garra que foram lançadas no programa Cult 22.

O Porão do Rock nasce como um coletivo. E em Brasília, o concreto já rachou, a música urbana traz a revelação de uma cidade inóspita, sombria, sacudida pelas conturbações lamentáveis da política e, paradoxalmente, uma cidade provocante aos sentidos, impulsionadora de novas atitudes e até de encantamento. Cantores, guitarristas, baixistas, bateristas em especial: muitos nomes e figuras na configuração dessas décadas.

A vibração era tão musical e divertida que a turma resolveu fazer um festival na quadra da 207 Norte, em que se destacava a programação cultural da creperia Chez Michou, então dirigida por Carlos Henrique, que logo seria o produtor da companhia de teatro Os Melhores do Mundo.

Mas as restrições foram tantas por parte da administração do Plano Piloto que os roqueiros resolveram fazer um festival na Concha Acústica, então abandonada. Assim foi ali que rolaram, em memoráveis momentos, a primeira e segunda edição.

E quem estava à frente da realização, além da sanha dos músicos das bandas? Duas pequenas produtoras: a G4, de Ulisses Xavier e dos irmãos Raul e Jair Santiago, na época músicos da banda Plastika (atualmente Seu Preto) e da For Rock, que realizava a festa junina com rock Forrock.

Voltemos ao Porão fora da 207 Norte: as duas primeiras edições foram na Concha Acústica, projetada por Oscar Niemeyer, à beira do Lago Paranoá, em iniciativa até do governo que prometia uma revitalização da Orla do Lago. No ano de 1998, só bandas de Brasília. Na segunda edição, bandas nacionais como Sheik Tosado, Autoramas, Os Inocentes (que cancelaram de última hora), Plebe Rude em sua formação original depois do rompimento de quase uma década.

O Porão, aos poucos e cada vez mais, ganhou a mídia nacional. De cara, pela musicalidade, propostas e artistas/bandas convidadas, em plena capital do país que todos se perguntavam qual era.

A Concha não era adequada – para eventos desse porte e estilo – por questões de arquitetura mesmo, instalações, espaço para a plateia. O festival foi transferido para o estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha. E deu certíssimo. Em 2003, foi necessário cobrar ingressos, mas até hoje o Porão se realiza com preços populares e ações de solidariedade e atenção a alguns grupos de ação inclusiva. Só não vai quem não quer.

Entre momentos de destaque na história, Marcos Pinheiro aponta: em 2002, devido à conquista pelo Brasil da Copa do Mundo de Futebol, no horário da manhã, o público em massa foi comemorar à tarde e noite no Porão do Rock. O festival estava na mídia nacional e provocou que outras cidades também fizessem seus festivais.

Para Marcos (também é minha opinião, que infelizmente faltei a diversas edições), o maior impacto musical do Porão do Rock foi com o show da banda britânica Muse, hoje no top dos tops. Eram conhecidos na Europa e já haviam lançado um DVD excelente gravado em Wembley. Mas não eram famosos nos Estados Unidos, o império que até recentemente deu as cartas do showbizz mundial. A performance em Brasília foi ponto alto da banda que, particularmente, me fez dançar como bode enquanto estavam em cena com um rock dilacerante. Ouçam por exemplo a versão do Muse para “I’m feeling good” e vocês piram.

A edição de 2009, na Esplanada, abrindo com antecipação a programação dos 50 anos da fundação de Brasília, foi outro grande momento. Tocaram Legião Urbana, com a participação de Toni Platão e o Paralamas de Herbert Viana. Renato Russo em plena e máxima forma. E vale relembrar:as mais importantes e ativas bandas do país passaram pelo festival, do Mangue Beat de Nação Livre S.A. a bandas gaúchas como Cachorro Grande e Os Detonautas. Chico Science, não podemos esquecer, morreu de acidente antes da criação do festival que depois consagraria o mangue beat e suas vertentes.

O público, a cada ano, confessa Pinheiro, cria uma expectativa. Pergunto por escândalos, bastidores, fofocas. Aahaha. Marcos, objetivo e profi, cita apenas o acidente em 2004 quando um estúpido lançou uma pedra contra o cantor Supla no palco e atingiu o rosto do baterista, que devido à porrada sangrou muito, encerrando o show. No ano seguinte, Supla fez questão de voltar e foi tudo em paz.

Sim, esqueci de dizer que Marcos Pinheiro é desde a criação do PDR o diretor de divulgação/imprensa do festival, quase um curador, e que ele tem muita vontade de um dia assistir ao próprio Porão sem interromper sua curtição para atender a tantas demandas.

Marcos Pinheiro reconhece: em 2017, a grande diferença, além da revelação de novas bandas brasilienses e nacionais, desenha-se ousadamente com a presença de Elza Soares. 80 anos de atrevimento e luta, cantando sobre a carne negra e em sua exuberante performance, uma mulher ensina que é preciso sempre superar as cãibras, cerceamentos, crises, contradições e culpas.

A história viva desses espetáculos, expressões e imagens precisa ser documentada, em livro, cinema e outros meios. Esse é um sonho dos que fazem o Porão do Rock por paixão e compromisso. Afinal, não é qualquer evento que conquista uma cidade como Brasília a ponto de se tornar seu patrimônio imaterial, musical, imagético, imaginário. Caiu no Porão tudo que é rock brasileiro, latino, europeu, norte-americano. As crises balançam, balançam e definem o perfil geral de cada edição e também sua participativa plateia. Todas as juventudes numa noite encenada com guitarras, baterias, vozes, criaturas, poesia e vertigem.

Até quando esperar, a plebe ajoelhar….! ?

 

Acompanhe as notícias do Festival pelo site http://www.poraodorock.com.br e confira aqui a programação completa desta edição:

Brasília Capital do Rock
15h: Agressivo Pau Pôdi
15h45: Mofo
16h30: Os Cabeloduro
17h20: Water Rats
18h10: Black Pantera
19h: Eminence
20h05: The Grindful Dead
20h55: Sepultura
22h30: Dark Avenger
23h35: Deceivers
0h40: Krisiun

Budweiser
15h: Lupa
16h10: Maria Sabina & a Pêia
17h20: Toro
18h40: FingerFingerrr
20h: Elza Soares
22h05: Rocca Vegas
23h40: Alf Sá
1h45: Black Alien

Claro
15h35: Euphoria
16h45: O Tarot
18h: Alarmes
19h20: Braza
21h10: Ego Kill Talent
22h45: Dona Cislene
0h35: Baiana System

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