Olhar Brasilia
Samanta Sallum

E se a capital não fosse mais em Brasília?

Tem gente por aí, no nosso Brasil, que questiona até hoje a construção da nova capital. Muitos cariocas, por exemplo, ainda se ressentem de terem perdido a sede do poder político do país. E existe um movimento para que Brasília seja esvaziada como capital ou até mesmo deixe de ser. Tem gente que acha que é assim. Algo do tipo: fecha-se a cidade e pronto. Acabem com Brasília e tragam a capital “para perto do povo”. Oi?!

Isso me parece algo tão absurdo! Mas, sim, é dito e pensado. E o que seria de Brasília se deixasse de ser a capital? Dá para imaginar a cidade assim? É meio difícil. Mas de uma coisa estou certa, apesar de divergir de tais devaneios: a nossa cidade sobreviveria. Não se tornaria uma cidade fantasma como imaginam por aí! 

Sabe aquela velha história do casal de adolescentes namorando no sofá e o pai, enciumado com a filha, manda jogar fora o sofá da casa como se estivesse resolvendo a questão? Uma visão caolha de que os problemas do país seriam menores se a capital deixasse de ser num “lugar isolado, longe das vozes do povo, onde os políticos fazem o que querem”.

O  povo está em Brasília, mora aqui, nasceu aqui ou veio de todos os cantos do país! Não estamos num lugar isolado! Toda hora temos de lembrar ao Brasil de que somos 3 milhões de habitantes! 

Lá no Rio de Janeiro, na semana passada, as vozes do povo não conseguiram impedir que a Assembleia Legislativa do estado relaxasse a prisão de três deputados estaduais, incluindo o presidente da Casa, deputado… O povo foi impedido de entrar na “Casa do Povo” para pressionar os deputados a manterem a prisão. Os deputados estavam presos acusados de receber propina. 

Nem mesmo a oficial de Justiça que tinha uma ordem liminar para que as galerias da Alerj fossem abertas conseguiu entrar. Foi impedida pelos seguranças, que deveriam ser do povo, mas eram dos deputados. Indignada, a oficial de Justiça deu uma entrevista para a TV dizendo que “o povo brasileiro é muito pacífico”. “Por isso, os políticos pintam e bordam, fazem tudo o que querem. Passam por cima até da Justiça.” 

Então, o problema do Brasil não é posição geográfica da sua capital. Pois, no Rio de Janeiro, como em outros estados, os escândalos políticos acontecem e o povo também não consegue fazer ouvir a sua voz. Somos um país inteiro a lamentar os rumos da nossa política. Brasília é parte dele: 0 de corpo, alma e coração. Sofremos juntos, choramos juntos, gritamos e silenciamos juntos todos os brasileiros, do Oiapoque ao Chuí.

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7 Comentários

  • Reply
    Flávio Sousa
    28 de novembro de 2017 at 13:07

    Cara Samanta:
    Aparentemente você não se inteirou dos argumentos em torno do problema da capitalidade. Existe uma literatura nas ciências humanas, especialmente na ciência política, extensa sobre o tema. De uma maneira geral, esse problema é o resultado da conjugação da evolução demográfica, planejamento territorial e urbano e cultura política, e não se relaciona simplesmente com a quantidade de habitantes ou sua origem geográfica, nem se explica em razão do “ressentimento” de seus estudiosos.
    No que diz respeito ao caso brasileiro, sugiro ler, por ex., o último número da Insight Inteligência, com um artigo do Christian Lynch, da Fund. Casa de Rui Barbosa, com um bom apanhado do debate teórico e histórico sobre a mudança da capital. (O link: http://insightinteligencia.com.br/pdfs/78.pdf)
    Um abraço,
    Flávio Sousa

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      pedro
      30 de novembro de 2017 at 01:42

      Flávio, obrigado por compartilhar o artigo. Devo reconhecer que nele o argumento está fartamente fundamentado, mas peca em um pressuposto que o joga no mar dos sensos-comuns antimudancistas: a noção distorcida que Brasília se resume a um clubinho do poder que se reúne de terça a quinta. Isso TALVEZ já tenha feito algum sentido, hoje não mais. Brasília é hoje a 3ª cidade mais populosa do país, temos aqui uma sociedade com perfil diversificado, movimentando a vida da capital nos mais diferentes segmentos. A administração pública envolve apenas 22% da população do DF, Temos o maior mercado consumidor do Centro-Oeste, que por sinal teve sua fronteira agrícola expandida graças aos investimentos canalizados pela construção de Brasília, vemos uma consciência cidadã em crescimento (por ex., não reelegemos nenhum dos últimos governadores), participação ativa nas grandes manifestações que agitaram o país recentemente (pró-PT ou anti), empreendedorismo, produção cultural efervescente e o principal, GENTE que construiu a vida em torno deste projeto, ama a cidade e sempre a defenderá quando preciso. Brasília já tem seus filhos, lembre-se disso. A choradeira carioca precisa de um fim, pois no mais todo esse barulho não passa de um ato desesperado para salvar o RJ do lamaçal que se meteu por incompetência própria. Os problemas da democracia brasileira pouco tem a ver com Brasília, mas principalmente com o que vocês mandam para cá. Ou seja, é um problema do Brasil, algo que não será corrigido com o deslocamento geográfico da sua capital

      • Reply
        Samanta Sallum
        30 de novembro de 2017 at 15:13

        Obrigada, Pedro e Flávio, pelos comentários e argumentos para subsidiar o debate. São contribuições importantes. Respeito as opiniões divergentes. Mas sou da linha de raciocínio do Pedro. Esse espaço do blog não tem a pretensão de ser um espaço acadêmico de dissertações de teses. É um espaço que nasceu para expressar opiniões e sentimentos meus em relação à cidade, que percebo também serem compartilhados por muitas pessoas. Os textos refletem situações que observo, desabafos de brasilienses que escuto, de rodas de conversa com não-brasilienses, enfim … Não estou aqui para convencer, mas para fazer os que pensam como eu não se sentirem sozinhos. E fico feliz em receber comentários que complementem as informações dos textos, referências que enriqueçam o assunto. Agradeço a leitura e a participação

    • Reply
      Samanta Sallum
      30 de novembro de 2017 at 15:12

      Obrigada, Pedro e Flávio, pelos comentários e argumentos para subsidiar o debate. São contribuições importantes. Respeito as opiniões divergentes. Mas sou da linha de raciocínio do Pedro. Esse espaço do blog não tem a pretensão de ser um espaço acadêmico de dissertações de teses. É um espaço que nasceu para expressar opiniões e sentimentos meus em relação à cidade, que percebo também serem compartilhados por muitas pessoas. Os textos refletem situações que observo, desabafos de brasilienses que escuto, de rodas de conversa com não-brasilienses, enfim … Não estou aqui para convencer, mas para fazer os que pensam como eu não se sentirem sozinhos. E fico feliz em receber comentários que complementem as informações dos textos, referências que enriqueçam o assunto. Agradeço a leitura e a participação

  • Reply
    Flávio Sousa
    28 de novembro de 2017 at 13:39

    E uma pequena coda — você narra o acontecimento de uma manifestação popular ao redor da Assembleia Legislativa do Rio como uma prova do fracasso das aspirações políticas na cidade, mas eu interpreto como um grande êxito: garantiu a visibilidade do embate político, sensibilizou toda a população que circulava pelo Centro, levou o assunto ao noticiário e ecoou no texto das decisões judiciais que, dias depois, anulariam o ato de força dos deputados. Essa diferença de interpretação — aí, melancólica, aqui, alegre — diz tudo, ou muito, do que eu mencionei como “cultura política” no meu primeiro comentário. Numa cidade como o Rio, acostumada às manifestações massivas e populares, os objetivos visados em um protesto são certamente maiores que mudar a canetada de uma única autoridade política. Os protestos são um modo próprio de habitar a cidade e exercer a cidadania.

    Flávio

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      Ricardo
      10 de dezembro de 2017 at 13:09

      Flavio, bom dia!
      Brasília sempre foi estigmatizada como a “capital dos políticos”, centro do poder e portanto de todos os reveses que promovem ao país…o noticiário está cheio desta lambança diariamente…

      AMO o Rio de Janeiro. Cidade maravilhosa, fervilhante. Mas seria o mesmo pensamento míope desmerecer a cidade pelos seus políticos eleitos e presos, ou pelos desmandos e absurdos que promoveram, tal qual costumam estigmatizar Brasília. Isso é injusto, seja no Rio ou em Brasília.

      Brasília é muito mais que isso. É uma cidade que fervilha. De belos traços, de ruas amplas, de motoristas que param na faixa para o pedestre passar. De parques e gramados extensos, abertos ao povo. De poucas cercas e muita integração popular. De uma gastronomia que emerge e fervilha, de uma música que se destaca no cenário nacional. De grandes atletas. De obras monumentais a serem contempladas. Mas também de acertos e erros como qualquer outro lugar.
      Por fim, lembremos que enquanto o Rio tem 452 anos, Brasília tem apenas 57. Uma criança, se quisermos fazer qualquer comparação. Mas que está crescendo, com erros e acertos como qualquer cidade.
      Parafraseando um colega de post e um ex-presidente, Brasília é irreversível. Vamos olhar pra frente e não pelo retrovisor…

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    pedro
    29 de novembro de 2017 at 21:48

    Uma ideia estapafúrdia, que lentamente perde fôlego desde 1987, quando recebemos o título da UNESCO. As pessoas insistem em fazer as mesmas críticas de 60 anos atrás, mas não percebem o quão obsoletas elas são. “Brasília é irreversível”, já dizia um ex-presidente.

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