5 de agosto de 2020
Olhar Brasilia
Espaço convidado

Clarice em seu devaneio definitivo: cavalos brancos em céu de grama verde

Convidado: Fábio Góis é jornalista, mas antes de qualquer anseio profissional foi hipnotizado por Clarice Lispector ainda na faculdade. No Correio Braziliense, sua primeira capa no caderno Pensar, voltado para literatura, foi justamente um ensaio/declaração de amor pela escritora. Hoje editor de política do site Congresso em Foco, faz questão de se manter encantado.

Talvez poucos conheçam Haia Lispector (1920-1977). Talvez ninguém a conheça, sequer ela mesma. Mas muitos sabem de Clarice, talvez a mais fascinante Lispector entre todas. Passaram-se 97 anos desde o nascimento da rainha. Como ela mesma escreveu dia desses, há pessoas que não morrem.

A escritora ucraniana que diz ter aprendido a falar com os recifenses – embora já se expressasse em iídiche desde tenra idade, por influência dos pais judeus – é, certamente, uma das mais desconcertantes criaturas que a existência humana viu e verá, em todos os tempos. Encantado definitivo, eu tive a sorte de não conhecê-la.

E logo explico: ela se chateava porque seus leitores a endeusavam, distanciando-se dela. De tão naturalmente mundana, ela deveria saber que apenas a distância providencial acabaria por colocá-la onde nunca esteve, no pedestal a que nossa memória é relegada pelo fim irreversível.

Pois eu quero a Clarice que nunca existiu. A esfinge-mor que viu cavalos brancos em desenfreado galope pela Esplanada dos Ministérios – foi a primeira ideia que lhe veio à cabeça ao ver o vasto e emblemático vão verde no centro do poder.

O que viu Clarice? Viu-se a si mesma, alma despedaçada ao vento, qual flâmula de crina sinuosa e se insinuar na imensião do nada? Era Clarice que viajava em cada galope, e ninguém percebeu.

Eu era pequeno e via dois títulos de Clarice na estante de minha irmã. Ao lado de um livro de Agatha Christie, lá estavam “A maçã no escuro” e “Um sopro de vida”.

A exemplo da romancista policial, impressionava-me o sobrenome imponente de rainha. Clarice me falava sem palavras, por meio das capas que sempre admitiu indutoras de suas leituras, e ainda fazia questão de me lembrar: digo algo aqui dentro.

Em 1975, ela foi convidada para um encontro de bruxas, na Colômbia. É sério e importante: a fada foi mais precisamente a Bogotá, para a Conferência Mundial das Bruxas. Quando soube disso, logo pensei: não é mera escrita, e sim encantamento à guisa de magia. Aquilo não poderia ser apenas literatura. Ninguém vê o suor de um búfalo e lá enxerga uma respiração encharcada.

Ninguém vê um rato ensanguentado enorme e ruivo, morto, e dele extrai uma “poesia de susto” de forma tão grandiosa. Ninguém carrega o fogo na mão de maneira tão pungente.

Como jamais pisou na terra natal. Sua mãe a deu à luz quando a família fugia do regime alemão antissemita. A bebê Clarice veio à vida em Tchechelnik, em 1920, na época um vilarejo fronteiriço da Ucrânia com a Polônia. Anos depois, já casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, viu da sacada de uma embaixada o bosque que a separava de sua pátria. Poderia muito bem descer da varanda, caminhar poucos metros e, enfim, tocar com os pés sua terra-mãe.

Mas Clarice não o fez. Para quê? “Para quê?”, deve ter pensando. Eu me arrisco à resposta que é apenas dela: porque há coisas que não acontecem devido à extrema ausência de razão para tal. Eu não conheci Clarice, mas sei que ela existiu pela razão mesma de explicar um tipo sagrado de amor. Ela ainda existe aqui, e comigo seguirá eternidade adentro.

Clarice viu um homem em fuga isolado em um lugar que não exise, imerso em uma sombra conceitual e literal. E, como que a possuir o ser daquele homem, sentiu o que ele parecia sentir quando percebeu a própria existência. “Como quando só notamos o relógio na parede quando ele para.”

Agora, com sua licença, leitor, passo a escrever como se me chamasse Martin, como que falando a Clarice, olhos nos olhos (queria poder ver o que ela faz):

“Não mais preciso escrever para você, dona de minha letras
Nada mais resta, que não seu nascer diário
Por todo o sopro de vida que nos une
Por cada lágrima de sorriso, por cada suspiro movido a sonho
Quero-te mais tatuagem e menos lirismo
Quero-te ao menos em minha pele
Pois não é tão simples assim saber-te por aí, inefável e airosa:
‘Às vezes sentimos tanto a falta de alguém que o que mais desejamos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la’ – contigo aprendi
Antes de nosso reencontro, suplico-te: volte a largar pelo chão pétalas de rosa
Não terá sido mero rastro; doravante, é nossa eternidade desenhada
Traço por traço, como aquarela de encontro, como o mais querido abraço”

Com todo o respeito às bruxas, Clarice foi uma fada: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/com-todo-o-respeito-as-bruxas-clarice-foi-uma-fada/

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