17 de agosto de 2019
Olhar Brasilia
Espaço convidado Mexeu com Brasília, Mexeu Comigo!

Mexeu comigo: defender Brasília vai além da autoestima. Tem a ver com automóveis.

Convidado: Ronaldo Weigand Jr. é formado em engenharia agronômica, Ph.D. em Antropologia pela University of Florida, consultor ambiental, ativista comunitário do Coletivo 416 N e do Movimento #repensePontaNorte.

Sim, as pessoas confundem a Brasília da Praça dos Três Poderes com a Brasília de todos nós, que moramos aqui. O problema, não é Brasília, mas quem mandam para representar seus Estados aqui. Mas isso é em parte. Os brasilienses têm deixado rolar coisas que não deveriam rolar e que ameaçam a cidade bem mais que a sua má fama pelo Brasil.

Vou usar como exemplo o Trevo de Triagem Norte (TTN), a principal obra do GDF, com 17 viadutos e pontes e um complexo conjunto de vias de acesso, sendo realizada na Saída Norte de Brasília.

Considerando que os congestionamentos se avolumavam no local e que a Ponte do Bragueto está com problemas estruturais, muita gente pergunta por que questionamos essa obra. A resposta é “mexeu com Brasília, mexeu comigo”.

Por que o TTN ameaça Brasília? O TTN e as demais obras na Saída Norte ameaçam Brasília porque incentivam a expansão urbana no Norte do Distrito Federal num modelo insustentável, que ameaça os recursos hídricos e a paisagem, e incentiva o uso do carro, o que termina por impactar toda a cidade.

O TTN é essencial para a expansão urbana no setor Taquari, que também é sua justificativa, como um cão correndo a atrás do próprio rabo. Essa expansão ameaça as nascentes na Serrinha do Paranoá, que agora é fonte de água para a população do DF. Ameaça nosso horizonte, que do Plano Piloto é feito de morros cobertos de vegetação, e não de prédios e casas. E ameaça o Plano Piloto…

Como assim ameaça o Plano Piloto? É assim: a expansão no norte do DF será baseada no uso do carro. O transporte coletivo demorará a chegar e o TTN novinho mandará uma mensagem a quem estiver disposto a se deslocar de carro: “venham morar no Norte do DF!” Assim, mais carros entrarão mais rapidamente no Plano Piloto pelo Trevo de Triagem Norte. O gargalo hoje existente na Ponte do Bragueto será transferido para o Buraco do Tatu e para o Eixo Rodoviário Norte. No horário de pico, as tesourinhas da Asa Norte vão parar. Tudo isso sem metrô, que só deverá chegar na ponta da Asa Norte depois que o ser humano estabelecer bases em Marte! (Sério!).

Mas não pensaram nisso? Se pensaram, não consideraram. Os estudos do licenciamento do TTN só tratam do entorno da obra e não tratam desse possível impacto no Eixão Norte, nas tesourinhas e nas quadras da Asa Norte.

Qual será o próximo passo para desafogar o trânsito de Brasília? Desfigurar o Eixo Monumental e a Rodoviária? De onde virá a água para abastecer essa população que o GDF pretende colocar no norte do DF? Qual será o impacto que essa ocupação estimulada pelo GDF terá sobre as nascentes que abastecem o Lago Paranoá? Os estudos que viabilizaram o licenciamento do TTN não consideraram essas perguntas.

Mas por que esse “equívoco”? A expansão urbana no norte do DF alimentará a especulação imobiliária e as empreiteiras. A nova ponte sobre o Lago Paranoá, atravessando o Lago Norte por um túnel, será outra obra ainda mais faraônica que o TTN para viabilizar essa expansão. Já deu para ver para onde estamos indo… Não tem “equívoco”; tem estratégia de negócios e de alianças com empresários e especuladores em detrimento do nosso futuro.

OK, você diz, entendi o problema. Mas o que fazer se a obra está adiantada? É complicado. Nossos questionamentos não foram ouvidos e preferem fingir que o problema não existe. Acho que a obra deve ser terminada, mas suas consequências devem ser evitadas. Ou seja, a implementação do transporte coletivo de qualidade no Norte do DF precisa ser acelerada, especialmente visando qualquer expansão urbana por lá, que só deve ser licenciada depois de avançada a implementação do transporte coletivo. A mensagem deve ser: “aqui é bom de morar porque você não precisa ter carro!” Por fim, a Serrinha do Paranoá deve ser protegida e mantida sem adensamentos urbanos, protegendo suas nascentes e nosso lindo horizonte de Brasília! O que define isso são o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) e a Lei de Ocupação do Solo, ambos da mira dos lobistas e especuladores de plantão.

Então é isso: Estão mexendo com Brasília. Estão mexendo comigo. Estão mexendo com você? (E tem a ver com automóveis…)

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