23 de setembro de 2020
Olhar Brasilia
Espaço convidado

Brasílias!

Convidado: Valdir Pereira da Silva é Procurador do Trabalho. Um paulista que mora na capital há mais de 40 anos. Da vida humilde no Gama Oeste aos palácios dos Tribunais, é um maratonista que ama correr no Parque da Cidade e de apreciar o céu capital.

Minha experiência de vida em Brasília começou em outubro de 1971. Nasci em São Paulo em 1962, então sou mais brasiliense do que paulistano, mas gosto muito de São Paulo, onde estão parte de minhas raízes emocionais. Naquela tarde, ao desembarcar na Estação Ferroviária do Núcleo Bandeirante, após 2 dias de viagem, entrava de cabeça nesta grande e épica experiência.

Sim, a vida pode ser difícil, sofrida, triste, ou também pode desafiar sua imaginação, alimentar seus sonhos dia a dia e fazê-lo perceber e vivenciar cada momento com olhos de pioneiros desbravadores. E como não se sentir um pioneiro vindo da maior cidade da América do Sul, direto para o Gama Oeste, quando as casas de alvenaria ainda eram poucas, e na frente de muitos lotes havia montes de areia e material de construção pronto para ser usado?

Passei dois anos rico de experiências e de enormes dificuldades no Gama, morei em casas onde não havia chegado a energia elétrica, vi erosões enormes cheias de água das chuvas, andei por ruas que repentinamente eram tomadas das mais genuínas nuvens de poeira, dessas que talvez nunca mais atravesse.

Então era puro espírito pioneiro, e aqueles barracos humildes cheios de esperança eram revezados pelas casas da SHIS Central, autênticos palacetes de um cômodo só, divididos por móveis, criando quartos e salas, precursores das modernas quitinetes. E nas ruas viam-se casinhas com muitos jardins, cheiro de amoras e mangas por toda a cidade, o lanche das 15hs era guarnecido por pães quentes vendidos por padeiros em bicicletas, e devo dizer que jamais comi pães tão deliciosos.

 

Esta imagem um pouco romântica das coisas daquele tempo não afastava a realidade dos empregos humildes que minha mãe assumia para pagar as contas do mês, até a grande vitória de assumir um emprego de servente no Colégio do Setor Leste, onde estudei (e morei, mas esta é outra história), e que para mim era algo como Stanford ou Harvard.

Tudo na vida é uma questão de percepção, de achar coisas boas e mágicas onde talvez não existissem de fato, mas o que importa? A realidade é moldada por sua visão, seu otimismo. E também pelo trabalho duro, sem amarras ou barreiras imaginárias. Nada de complexos ou fatalismos, por favor. Não, não é autoajuda.

Brasília realmente podia abrir os caminhos, e estudar no Setor Leste, por ser um bom aluno, me levou a fazer o concurso/teste para menor aprendiz do Banco do Brasil, e comecei a trabalhar lá aos 15 anos de idade, com carteira assinada, diretamente pelo Banco.

Quase tempo de me aposentar! E aí houve as casas e apartamentos no Cruzeiro, o Exército, o TST, o Ministério Público do Trabalho, onde sou Procurador há 21 anos. As dificuldades vinham e iam, e o céu de Brasília acima de minha cabeça, e o ar seco de maio a setembro era na realidade um combustível poderoso na minha vida.

Vejam só, a época de seca na Capital é sempre a garantia de dias de sol, de um pouco de frio ao fim do dia, de renovação de forças. Da esperança na chuva que chegará no máximo em outubro. O horário de verão foi adotado alguns anos depois, mas esses fins de tarde com aquele céu único no mundo, com suas cores alaranjadas, vermelhas, azuis, bem, meus amigos, isto é como realmente viver em um cenário de cinema, com seus grandes planos, seus silêncios, tudo que nos remete à contemplação, à busca por algo maior.

Crepúsculos que nos emocionam e que nos levam automaticamente a orar, a agradecer. Na chegada em casa nos fins de tarde, no Parque da Cidade nas eternas corridas, nas noites de lua cheia, ao sentir o cheiro da relva ao passear a pé no meio do concreto das superquadras. Preciso fazer isto mais vezes, precisamos, esse cheiro da noite é único também.

Dia destes li no WhatsApp um debate entre duas juízas de direito acerca da meritocracia, estavam no cargo por mérito ou em decorrência de sua classe social, com boas escolas, bons cursos, bons intercâmbios, o pacote completo classe média. Uma tinha tido acesso a essas coisas, a outra não, e ambas eram juízas. Debate sem fim. Pensei ontem sobre isto, e aqui, sentado neste computador em uma manhã de sábado, no Setor Sudoeste, bairro nobre de Brasília, em um grande apartamento, prefiro não aceitar uma posição ou outra, cada uma com sua parcela de razão. Mas o que me trouxe até aqui, com certeza, foi primeiramente Deus e depois Brasília, com sua mágica, sua luz, sua energia, suas eternas possibilidades.

Em 1971, em 2017, peguem sua chance. Aqui é o lugar para ser feliz. Agradeço cada quilômetro percorrido de São Paulo até aqui, de trem, com muitos sonhos me esperando naquela Estação.

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