16 de junho de 2019
Olhar Brasilia
Samanta Sallum

Histórias que a morte me contou… E as estrelas que continuam lá

Hora de zerar as contas, especialmente as do coração. Fim de ano é um bom momento para isso. O professor de um curso que eu faço é enfermeiro, cuida de doentes terminais. Ele, às vezes, conta algumas histórias sobre a perda de pacientes, mas também sobre alguns que contrariaram as previsões médicas e viveram bem mais do que se esperava. Histórias de dor, mas, acima de tudo, de esperança. O encontro marcado com a morte nos dá lições de vida.

Ele conta que a maior fonte de sofrimento dos pacientes terminais não é a dor ou o estado físico. Sim, sofrem com isso também. Mas são as questões afetivas, a aflição e a angústia de saberem que não têm tempo mais para resolver certas coisas, que os martirizam e os prendem desesperadamente à vida. A sensação de terem desperdiçado um precioso tempo.

Pessoas atreladas por anos a mágoas, ressentimentos, raivas. A vontade de restaurar relações, de perdoar e ser perdoado. O que eles mais pedem é um pouco mais de tempo para resolver pendências emocionais. Sofrimento que avassala pobres e ricos. Isso quem conta é um enfermeiro que lida com essa realidade todos os dias.

E ele me convida a um exercício. Trace o que você quer para a sua vida nos próximos 20 anos, depois encurte essas metas para um prazo de 5 anos e, por fim, refaça esses planos para o tempo de menos de 1 ano. Ou seja, o que você faria se tivesse apenas mais 1 ano de vida? Realmente pensar nisso faz mudar toda a nossa percepção, e coisas grandes ficam pequenas. Coisas não tão urgentes ficam urgentíssimas !

Meu professor enfermeiro conta histórias reais que eu gostaria de ter espaço aqui para recontá-las. Histórias impressionantes, que nem a arte e a ficção fariam tão emocionantes. E é ele quem dá o título deste texto, me diz “são histórias que a morte me contou…”

O fim de cada ano pode ser encarado como um tipo de morte. O réveillon, um ritual de passagem, em que queremos matar o velho para dar lugar a um novo mais feliz. Difícil zerar todas as nossas contas de uma vez só, num ano só. Mas eu venho tentando diminuir pelo menos um pouco as minhas. Não quero um dia ter a sensação de que é tarde demais…

Temos de parar de guardar vinhos por anos esperando o melhor momento de abri-los. A gente não pode deixar nem por um minuto que uma pessoa ache que não é importante para a gente se ela é. O que o outro vai fazer com isso é problema dele, o importante é a gente saber que não fomos covardes em zerar nossas contas. Isso é um ganho pessoal inestimável.

Tem pessoas que me dizem que eu perdoo muito fácil. E que isso pode fazer o outro abusar de minha boa-fé. Mas o fato é que, quando eu perdoo, eu sinto um certo alívio. Nem sempre acontece tão facilmente e rapidamente. Mas, ao menor gesto do outro de estender a mão, e perdoo. E talvez não haja mérito meu algum nisso, talvez seja minha vontade de também ser perdoada tão rápido quando cometo meus pecados.

Sobre as estrelas

Um dia, meu céu anoiteceu sem estrelas. Como assim?! Elas estavam num dia lá lindas para mim, radiantes, e eu sentia tanta felicidade. E, de repente, de uma hora para outra, elas desapareceram. A noite era escura, sem nada para me alegrar. Nossa! Por que as estrelas desapareceram do meu céu??

Acho que todo mundo já se perguntou isso. E já culpei algumas pessoas por terem roubado as minhas estrelinhas do céu! Devolva as minhas estrelas, seu ladrão!! Já gritei por dentro.

Mas, então, uma fada madrinha me disse: “Samanta, ninguém roubou as estrelas do seu céu. Elas estão lá para você, continuam lá. No máximo, alguém pode ter embaçado a sua vista e você apenas não está conseguindo enxergá-las, mas elas estão lá, eu te garanto”.

E não é porque uma luzinha se apagou que a gente pode se dar ao luxo de não olhar para outras que brilham para gente. Às vezes, a que se apaga nos ajuda a ver como brilhantes são as que ficam.

Para as estrelas do meu céu: meus pais, Edson e Viviane; meus irmãos, Erick e Bernardo; meus sobrinhos, Sofia, Teo e Bruninha; minha cunhada, Andressa; meu punhado de amigos tão fiéis, aos que passaram pela minha vida e estiveram ao meu lado em momentos tão importantes e que mesmo agora distantes continuam a brilhar para mim. Para minha querida amiga, parceira de projetos, de sonhos, que me honrou com uma escolha tão importante para criar junto com ela este site, este espaço, Marcia Zarur. Sigo ansiosa para OLHAR muitas estrelas em 2018! É o que desejo para todos.

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