10 de Janeiro de 2018
Olhar Brasilia
Lá na minha rua

Histórias cruzadas de uma Ceilândia vencedora

Filho de um carteiro e de uma dona de casa, Daniel cresceu em Ceilândia e é a cara de uma geração que rompeu a falta de perspectivas e venceu com mérito próprio. Criado numa cidade que nasceu para abrigar pessoas em situação precária, que viviam em invasões, o publicitário, de 33 anos, trabalha no Plano Piloto, mas não abre mão dela como lar.

Em Ceilândia, pulsa o coração bem brasileiro da capital. Uma cidade de 46 anos, que tem vida própria e orgulho de ter crescido e se estabelecido. Uma cidade de respeito, com cerca de 600 mil habitantes. “Hoje, tenho condições econômicas para morar no Plano ou em Águas Claras, mas não quero sair de Ceilândia. Quero ajudar outras pessoas a conseguirem o mesmo que eu. Quero estar lá, perto delas”, diz Daniel Didó.  

Mas ele não chegou à universidade e alcançou o sucesso profissional e pessoal sozinho. Teve ajuda, incentivo, ombros para ampará-lo nos diversos momentos em que pensou em desistir. A trilha não foi fácil. Aos 18 anos, foi o momento decisivo. É quando a sua história cruza com a de Luciano Marcena, que estava começando o trabalho na ONG Instituto Inclusão de Desenvolvimento e Promoção Social em Ceilândia.

Lá encontrou suporte. A ONG tem 15 anos e foi criada por Luciano, filho de costureira, que, ao ver perdas na própria família e de amigos para a violência e drogas, logo criou um sentimento de resistência.

Uma vontade de lutar contra isso, de ajudar a melhorar a realidade das pessoas, de mostrar que há outros caminhos. Cresci vendo meus amigos se perderem para o tráfico”, conta Luciano, 43, que tem 10 irmãos e ajudou a criar os mais novos.

Um deles, Natanael, se formou em Assistência Social e é um dos principais participantes da ONG, que conta com uma equipe de 10 pessoas. Já passaram pelos projetos mais de 1 mil pessoas, entre jovens e adultos. Nos primeiros anos, a sede da entidade era numa rua de boca de fumo. A ONG oferece cursos de cabeleireiro, costura, futebol, inglês, jiu-jítsu e computação, entre outras opções.

“O Daniel é resultado vivo e concreto do nosso trabalho aqui”, diz, orgulhoso, Luciano. “Eu encontrei no Luciano e na ONG muito apoio, principalmente psicológico e emocional. Eles me fizeram acreditar que eu poderia me destacar”, lembra Daniel, com emoção. 

O publicitário chegou a trabalhar como panfleteiro de rua na adolescência e diz que sua mãe sempre tentou ocupar o tempo dele e do irmão com cursos para que não ficassem à toa na rua. “A gente tinha o básico, mas vivia com dificuldade.”

Daniel estudou em escolas públicas, onde a falta de estrutura era compensada pelo empenho dos professores, até que passou no vestibular da faculdade JK, no Pistão Sul, em Taguatinga. “Foram muitos obstáculos: pagar a faculdade, falta de dinheiro para condução… Cheguei a reprovar em algumas matérias por não ter tido uma boa base, deu muita vontade de desistir.” Mas Daniel cresceu e chegou lá.

No dia em que se formou, já estava empregado. Hoje, ele é diretor de criação da Agência P7. O publicitário se dedica também à ONG onde um dia encontrou suporte. 

Quero ser um agente transformador na vida das pessoas. Quero ajudar a mostrar que não é o ambiente que faz a pessoa, mas seus sonhos e objetivos.”

Lição mais que aprendida – realizada!

   

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