22 de julho de 2019
Olhar Brasilia

Fotos: Marcelo Abreu

Espaço convidado

“Me conta a tua história”

Convidado: Marcelo Abreu, jornalista, da ilha de São Luís e brasiliense por afeto adquirido

Há quem diga que Brasília tem o formato de um avião. Sim, tem. Há quem diga que Brasília tem algo místico. Pode ser. Há quem diga que Brasília é a capital do terceiro milênio. OK. Que é a representação do poder, esse poder nefasto, que corrompe e se deixa corromper, comandado por homens e mulheres que vieram de várias partes do Brasil. É.

Há que diga um monte de coisa de coisa sobre a cidade que caminha para os 58 anos, em 21 de abril próximo. Brasília é tudo isso. E muito mais do que isso. A capital do país, síntese da teimosia, assombro, da terra vermelha, que sujava as botinas e os olhos, e muito sonho. É, sobretudo, uma aglomeração de gente que veio de todos os cantos deste país continental. Essa é a melhor definição. Nada existe sem gente.

Brasília existe. Respira gente, num vaivém incessante e multirracial. Num vaivém de histórias e numa vontade enorme de fazer com que a vida dê certo, todos os dias. Essa Brasília fica muito mais visível quando se consegue ver do alto. Ano passado, até dezembro, fiz um bom trabalho de editor de textos na Agência do Rádio Brasileiro (ARB), exatamente na cobertura de um dos edifícios do emblemático Conic. Passei a chamar o local de “minha Cobertura Central”. Foi uma experiência enriquecedora, depois de tanto tempo vivendo aqui.

Versos reais

O Conic, centro comercial no coração de Brasília, próximo à Rodoviária do Plano Piloto, é a melhor tradução da terra de JK. Ali, a vida, de tão concreta, faz poesia. Sim, poesia se faz melhor com versos reais. São os melhores.

Ok. Nesses meses em que meu local de trabalho foi essa cobertura, todos os dias eu me detinha olhando a vida de lá de cima. Há uma visão geral dos quatro cantos de Brasília. A que nunca me interessava é a que dá para a Esplanada. Não, definitivamente, ali nada me interessa. É a Brasília dos palácios e monumentos de Oscar Niemeyer. A que, também todo dia, envergonha uma nação inteira. Causa perplexidade e uma sensação de impunidade e desmandos sem limites. Essa Brasília, definitivamente, nunca me interessou. Eu andei anos-luz dela. Preferi não vê-la. Foi assim desde toda a minha vida de repórter em jornal.

Decidi seguir pelos outros olhares da cobertura, que forma um”L” bem grande. Há vistas bem mais prazerosas . O entardecer do Eixo Monumental é extasiante. O sol se esconde atrás da Torre de TV. Os carros vão e voltam em ambos os sentidos do Eixo. Os faróis iluminam a terra de JK. Anoitece na capital feita de teimosia e barro vermelho.

“Me conta a tua história?”

No dia seguinte, a vida recomeça. Do alto, veem-se as gentes retomando a luta da enorme passarela entre o Conic e o Conjunto Nacional. É a melhor visão da Cobertura Central. Por minutos. Com um café, coado no saco (o melhor de todos), preparado com esmero pela moça simpática da faxina (uma dessas gentes que acabaram de transitar pela passarela), perdia-me ali, vendo aquelas pessoas. E começava a imaginar coisas.

De onde vinham, para onde iam. Uns caminhavam sozinhos, pensativos. Se as pessoas estavam juntas, imaginava do que falavam? Que histórias teriam para contar. Qual seria a grande batalha do dia? O que movia aquela gente naquele vaivém anônimo e verdadeiro? Ali ninguém está na Ilha da Fantasia.

Muitas vezes senti vontade de descer correndo e, na maior cara de pau, parar algumas delas e dizer: “Por favor, me conta a tua história”. Acho que elas me achariam maluco total. Sairia do Conic em camisa de força. Confirmei, vendo do alto, que a verdadeira Brasília, a que me interessa, passa todos os dias por ali.

É a cidade dos muitos anônimos que vieram dos mais diferentes lugares deste país atrás do sonho da “Capital da Esperança”. Uma gente que se orgulha da luta diária e dá cara a tapa. Sem medo. Nem da vida nem da polícia. Tampouco de condução coercitiva. Sim, a maior parte esmagadora dos cerca de quase quatro milhões de seres que habitam o DF – e certamente muitos deles circulam por ali – é honesta. Eu não tenho dúvida disso. Não se pode medir Brasília pela Esplanada. Esse é maior erro de quem conhece a cidade só pela televisão. Ou de quem, mesmo conhecendo, mas por completa ignorância e má-fé, ainda pensa assim.

Babel de seres

Passeando mais ainda pela enorme cobertura, avistam-se a Torre Digital, o começo da Asa Norte, o lago, a Ponte JK, os setores Bancário Sul e de Autarquia e o começo da Asa Sul, com o Eixão, escancarado, a te levar para onde a tua imaginação permitir. É uma visão privilegiada de como a cidade funciona e se organiza. E de como os seus espaços foram ocupados.

Ainda de um pequeno pedaço menor dessa cobertura, tem-se a visão interna do próprio Conic. Ali, a diversidade de seres e os motivos pelos quais cada estava naquele espaço me faziam viajar nas histórias.

Paraíso dos sindicatos (de boa parte das categorias profissionais), de igrejas evangélicas, seus devotos e dízimos, da Faculdade Dulcina de Moraes e sua arte que resistiu aos momentos mais dramáticos da repressão na capital, dos escritórios de advocacia, dos consultórios médicos, das mais diversas empresas, muitas óticas, farmácias, lanchonete e bares – tem até uma padaria –, o Conic é uma verdadeira cidade à parte dentro de Brasília.

Visto do alto, tem-se a noção exata do seu formato. E de suas gentes. Radiografia melhor não há. Para um observador mais atento, é como se alma de cada um, que não sabia estar sendo visto, ficasse mais transparente. Essa cobertura é reveladora.

A três meses e dois dias dos 58 anos, a contar desta sexta, 19, a cidade há muito assumiu a sua própria identidade. Brasília tem cheiro, um falar próprio, cantos, becos, esquinas, labirintos, gentes diversas e suas mais fantásticas histórias. E possui, cada vez mais, uma vontade enorme de caminhar. Toda essa cidade, vista da Cobertura Central, é um presente para quem quer enxergar a vida em toda a sua amplitude. Eu tive bons presentes ao sabor dela. Diria até que foi um belo ensaio antropológico. Uma experiência de vida.

Nota: Hoje, exatamente nesta sexta-feira, 19 de janeiro, faz 33 anos que cheguei a Brasília, para morar com os meus pais. Era adolescente. Vim de uma ilha, com o mar à porta. Aqui encontrei o Lago Paranoá. E foi esse o mar que passei a inventar. Era um sábado chuvoso. O caminho do aeroporto até a nossa casa, na 105 Sul, foi de silêncio. Um Eixão vazio e quase nenhuma gente. Contavam-se os carros. E as vidas que circulavam por aquela avenida larga e deserta. Juro que só pensava em voltar para perto do mar.

Da Cobertura Central, vi o começo do Eixão Sul. E se desnudou uma cidade anos-luz daquela que encontrei naquele sábado chuvoso de 1985. Brasília virou real. Quando comecei a perceber isso, fui gostando aos poucos daqui. Do alto, eu consegui ver o mar que batia à porta nas águas do Paranoá. Eu e Brasília estamos bem. Nos encontramos.

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Um comentário

  • Reply
    Katia Aguiar
    2018-01-19 at 12:07

    Mais uma linda história do contador Marcelo Abreu. Essa de chegança e de amor construído. Que presentão ele ter vindo pra cá.

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