5 de agosto de 2020
Olhar Brasilia
Lá na minha rua

A água vai acabar?

A pergunta faz muito sentido, especialmente para nós moradores do Distrito Federal. Nunca passamos por uma crise hídrica tão grave. Nunca nos preocupamos tanto com a possibilidade real de ficarmos com as torneiras secas.

Para o ecossociólogo e professor Eugênio Giovenardi, que há mais de 40 anos observa e estuda as águas, precisamos tomar medidas urgentes. “Nós estamos secando o planeta”, diz. “E precisamos começar a agir rápido para garantir água para as próximas gerações.”

Giovenardi defende uma mudança radical no uso da água e no planejamento e ocupação da cidade. Ele participou de uma série de debates preparatórios para o 8o Fórum Mundial da Água, que será realizado em Brasília a partir de 18 de março. E é um dos responsáveis pela elaboração da Carta da Água (que você lê na íntegra logo abaixo).

O documento fala especificamente sobre a questão hídrica no DF e, didaticamente, expõe a situação atual, a situação desejável e a transição hídrica.

Os estudiosos defendem campanhas educativas que conscientizem a população sobre o combate constante ao desperdício, o uso racional e a necessidade de preservação das nascentes. A carta cobra também uma ação mais efetiva dos gestores para “controlar, fiscalizar e impedir rigorosamente e sem tréguas a ocupação irregular e a especulação imobiliária.”

“Não adianta contar só com aumento de chuvas, precisamos antes de tudo cuidar das nascentes, reflorestar suas margens e não deixar que construam nesses locais sensíveis”, adverte o professor.

O Olhar Brasília acompanha o assunto e pergunta: você está fazendo a sua parte?

Leia a Carta da Água, na íntegra. Um documento elaborado com a participação de integrantes do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Conselho de Arquitetos e Urbanistas (CAU-DF), Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA-DF) e Ordem do Advogados do Brasil (OAB-DF). 


CARTA DA ÁGUA:
DA ESCASSEZ À TRANSIÇÃO HÍDRICA
Newton Castro, Engenheiro Civil
Eugênio Giovenardi, ecossociólogo e escritor

A história da água sobre o planeta Terra é complexa e está diretamente relacionada ao crescimento da população humana, ao grau de urbanização e aos usos múltiplos que afetam a quantidade e a qualidade. (José Galizia Tundisi)

O Oitavo Fórum Mundial da Água, que se realiza em Brasília, de 18 a 22 de março de 2018, mobiliza mais de uma centena de países, o governo brasileiro, os governos estaduais e municipais e um grande número de institutos acadêmicos e organizações não governamentais.

As decisões que serão tomadas nesse evento terão efeito não só para o Brasil. Elas contemplarão os mais de 7,5 bilhões de habitantes humanos, além de muitos outros bilhões de seres vivos que constituem a biodiversidade do planeta.

As mudanças de comportamento climático, pelas quais atravessa o planeta, afetam o regime de chuvas e provocam situações extremas de longas estiagens ou inundações desastrosas. Esses eventos, com maior ou menor intensidade, se fazem sentir em todas as regiões do planeta.

Na organização da natureza, a água está disponível, indistintamen6te, para todos os seres vivos. Alguns deles, como as árvores, são protetores dos cursos de água. Com exceção da espécie humana, todos os seres vivos convivem harmoniosamente com a água. Não existe, no conjunto de riquezas naturais, uma oferta específica de água para a espécie humana. Ao se tratar do uso da água pela espécie humana, deve-se considerar que sua demanda é crescente e diversificada.

A intervenção humana no cenário natural, relacionada à reprodução e à sobrevivência, ocasiona distúrbios que podem ser danosos a todos os seres vivos que formam a biocomunidade de um bioma e seus ecossistemas.

Na administração da captação e retenção das águas disponíveis para uso humano há que se considerar duas questões fundamentais: quanta água há e quantos são os que precisam de água, incluindo todos os seres vivos de um bioma. Um terceiro elemento, não menos importante, se acrescenta aos dois anteriores: quanto custa satisfazer equanimemente a gama diversificada de necessidades da população humana.

1) Situação atual

O Oitavo Fórum Mundial da Água, com a participação dos órgãos oficiais de todos os países envolvidos, órgãos governamentais e não governamentais brasileiros, se debruçará particularmente sobre as circunstâncias físicas do planeta e específicas do Planalto Central. Por ser o berço das águas, O DF requer uma sábia e gradual mudança de paradigma dos habitantes brasilienses a respeito da natureza.

A atual situação hídrica de escassez resulta do aumento da população, de sua demanda diversificada, da urbanização intensa, da malha rodoviária que favorece o uso individual do transporte e da devastação dos mananciais. Agrava-se com a irregularidade e diminuição das chuvas como efeito de mudanças climáticas. O conjunto desses fatores reduzem a capacidade de suporte geográfico do DF e conduzem ao empobrecimento da biodiversidade regional.

A inexistência ou o inadequado acompanhamento do balanço hídrico, o ineficiente gerenciamento de bacias hidrográficas, a consequente devastação de matas ciliares, a extinção de nascentes e pequenos cursos d’água obrigaram os gestores a decidirem, com atraso, pelo racionamento generalizado no fornecimento de água.

Outros aspectos importantes que provocaram a escassez hídrica se referem ao descontrole do uso de águas subterrâneas por meio de poços artesianos (mais de 40 mil no DF), a ações técnicas e políticas pouco significativas de captação de águas pluviais e ao escasso reuso de águas servidas.

Essas dificuldades são acrescidas pela pouca integração com as comunidades vizinhas que formam a Área Metropolitana de Brasília, pelas perdas significativas (mais de 30%) de água tratada e pela especulação imobiliária desenfreada. Esses fatores provocam demandas fora de controle.

Agregue-se que a paralização das obras de Corumbá IV (GO) afetou igualmente o fornecimento de água à população do DF. A construção da usina de tratamento fornece água retirada do Lago Paranoá com vazão inicial de 700 litros por segundo ou 60,5 milhões de litros por dia. É de se notar que a retirada de águas acumuladas pela chuva não significa aumento da capacidade natural dos poucos mananciais que ainda restam no DF.

2) Situação desejável

O consumo responsável e racional da água, fruto da educação ambiental e da aplicação rigorosa da legislação pertinente, propiciará um volume diário democrático e igualitário à população. Órgãos de saúde pública nacionais e internacionais deveriam sugerir a cota mínima necessária para orientação dos organismos responsáveis pelo abastecimento de água a toda a população.

A irregularidade e a escassez de chuvas, segundo informações divulgadas, podem continuar por longo tempo. Esse alerta deve ser intensamente comunicado à população para despertar atitude consciente diante da escassez e gerar novos comportamentos. É prudente assumir que as mudanças climáticas afetam fortemente o Planeta e, particularmente, o Cerrado brasileiro, o que implica em mudança de costumes no uso da água, tanto na cidade quanto nas lavouras produtoras de alimentos.

Propõe-se para isso um processo salutar de transição hídrica.

A transição hídrica significa alteração de atitudes, substituição de hábitos, mudança de conceitos em relação à água, para a passagem do modo atual de comportar-se a outro mais adequado. Trata-se de mudança de paradigma que implica em olhar de maneira diferente a natureza.

Ainda que os reservatórios locais cheguem a 100% e novas retiradas sejam feitas de longas distâncias, é necessário que a população mude seu comportamento em relação ao uso da água.
É imprescindível realizar o balanço hídrico do DF e Área Metropolitana tanto no uso pessoal quanto na produção agrícola e industrial cujos resultados devem ser apresentados, com transparência, à população.

Entre ações importantes e urgentes propõe-se:
- investir fortemente no gerenciamento das bacias hidrográficas;
- criar programa específico de proteção e repovoamento das
matas ciliares com espécies nativas;
- estabelecer, com a participação dos comitês de bacias, um
monitoramento eletrônico da vazão das nascentes e pequenos cursos d’água para informação permanente à população;
-estimular e promover forte integração da população do DF com municípios vizinhos para avaliar a variação do potencial hídrico dos cursos d’água;
- fomentar ações de reuso da água e utilização da água da chuva;
- reduzir as perdas de água tratada a níveis não superiores a 10% e, ao mesmo tempo, intensificar sistemas de controle de perdas de rede;
- controlar, fiscalizar e impedir rigorosamente e sem tréguas a ocupação irregular e a especulação imobiliária;
- orientar a população sobre a outorga e a finalidade do uso das águas subterrâneas e fiscalizar sistematicamente o volume utilizado através de relógios medidores.

3) Transição Hídrica

Entre as ações para o êxito da transição hídrica e a mudança de paradigma, sugere-se, especialmente para o DF:

-Mapear e divulgar amplamente todos os nascimentos de corpos d’água da região do Distrito Federal e adjacências.
- Programar investimentos adequados a montante (águas acima) com a finalidade de proteção dos mananciais, mantendo uma linha intransponível para preservação da vegetação nativa.
- Ampliar o sistema de captação de águas da chuva nos prédios urbanos e rurais que favoreçam, por um lado, a recarga dos aquíferos e, por outra parte, reduzam a pressão sobre os reservatórios.
- Desenvolver tecnologias adequadas e divulgar informações para reuso da água de acordo com a modalidade de seu uso.
- Informar a população sobre o consumo de água embutido na geração de energia elétrica. O consumo de dois quilowatts/dia por habitante necessita de 13 mil litros de água (6.600 litros para gerar um quilowatt). Não é de estranhar que as represas hidrelétricas se esvaziam.
- Incentivar investimentos em alternativas de geração de energia elétrica. Poupar energia hidrelétrica é poupar água;
- Universalizar a educação ambiental sobre a redução, seleção e classificação do lixo para proteger os cursos de água.
- Avaliar o Zoneamento Econômico Ecológico (ZEE) no que tange ao uso da água nas diversas atividades humanas, urbanas e rurais.
- Considerar os habitantes de municípios vizinhos afetados pela mesma situação da capital federal, pois pertencem ao mesmo ecossistema.
- Buscar intensa Cooperação com os Estados de Goiás e Minas Gerais no que tange aos recursos hídricos.
- Criar Comitês de Risco para as diversas atividades econômicas no sentido de buscar o ponto de equilíbrio entre o uso e a reposição do volume hídrico.
- Elaborar planejamento de curto, médio e longo prazos para implementação de medidas econômicas de caráter permanente ao acesso à disponibilidade da água.
- Cumprir a legislação que decreta a água como bem natural, de uso comum do povo, não sendo propriedade nem de órgãos públicos, nem de corporações ou pessoas físicas. Aos órgãos públicos compete o gerenciamento da água e não sua propriedade;
- Criar o Fundo de Gerenciamento e Controle do Uso da Água, (Bolsa Água para agricultores) com a responsabilidade de propor ações especiais e apoiar iniciativas educacionais, científicas ou outras pertinentes ao uso e conservação dos corpos d’água. O Fundo será gerido pela sociedade civil, com participação de especialistas, empresas públicas, privadas e universidades.
- Assumir institucionalmente o estado de Transição Hídrica estimulando ações continuadas e perenes.
- Estabelecer, com urgência, metas consistentes para os próximos vinte anos.
- Pôr em ação, com o apoio da mídia, um sistema de comunicação permanente sobre a escassez hídrica.
- Criar PORTAL DE TRANSPARÊNCIA com a disponibilização de todos os dados, estatísticas, consumos, disponibilidade hídrica e demais informações necessárias à participação e fiscalização da população.
- Incentivar a organização popular de grupos de observação e informação sobre ações de proteção de nascentes e da vegetação nativa realizadas no âmbito do DF.

A caracterização do estado de Transição Hídrica permitirá a todos, permanentemente, travar contato com a realidade da escassez de água e da necessidade de cada um fazer sua parte de forma consciente.

Tratando-se de uma situação muito grave, todos somos responsáveis: órgãos públicos e privados, pessoas físicas e jurídicas, centros de ensino e pesquisa, além de outros agentes que podem agir de forma positiva.

O objetivo é a discussão de medidas e soluções para a atual e as próximas gerações, que podem não encontrar água suficiente e adequada às suas necessidades.
A ênfase deve ser dada à mudança de comportamento dos diversos agentes sociais, desde o cidadão comum até os organismos de controle e execução.

A Transição Hídrica há que ultrapassar períodos de governos, pois a natureza do problema não comporta desvios em relação ao tema central. Requer reavaliações permanentes, sem mudanças de curso ou paralização de ações.

A transição necessariamente perpassa toda a sociedade. A comunicação adequada e transparente estimulará a participação da população sem empecilhos burocráticos às soluções propostas.

O estabelecimento de algumas metas de curto prazo, imediatamente propostas, poderá estancar problemas crônicos. As metas de médio e longo prazo deverão se estender, pelo menos, aos próximos 2 anos, de tal forma que as futuras gerações, por nossa desídia, não sofram consequências maiores.

Os meios de comunicação e a organização popular em defesa dos mananciais têm papel fundamental neste esforço de conscientização, divulgação e êxito da Transição Hídrica.

Esta Carta da Água resume os debates realizados no Terceiro Seminário Águas Acima, realizado em 30.3.2017, preparatório do Oitavo Fórum Mundial da Água. Promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico/DF, contou com a inestimável participação do Conselho de Arquitetos Urbanistas/DF, do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia/DF, da Embrapa e Emater/DF, e da Ordem dos Advogados do Brasil/DF.

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