27 de fevereiro de 2018
Olhar Brasilia
Lá na minha rua

Entrevista com Maria Elisa Costa – Brasília resiste!

“Vem cá que eu quero te mostrar uma coisa. A coisa era Brasília!”, conta a arquiteta Maria Elisa Costa, filha do homem que ‘inventou’ a nova capital. Ela, que era estudante de arquitetura à época, foi a primeira a ver o projeto.

Hoje, 27 de fevereiro, o arquiteto Lucio Costa, que criou o plano urbanístico da nossa cidade, completaria 116 anos. Maria Elisa é uma das guardiãs da obra de Lucio e sempre está atenta ao que ocorre na cidade, mesmo morando no Rio de Janeiro. “Ninguém pode se achar proprietário dos pilotis dos prédios de Brasília!”, chama a atenção a arquiteta para as tentativas de se fechar o livre acesso a eles no Plano Piloto. 

Ela falou com o Olhar Brasília e abordou alguns temas polêmicos. Chamou de “estupidez” as grades na Praça dos Três Poderes, comentou sobre o “envelhecimento” da cidade e do absurdo do desleixo com a manutenção. Respondeu também sobre o duelo entre preservação e expansão urbana, manifestando alarme com a possível alteração de gabarito da W3. E clama: “Deixem o centro histórico de Brasília em paz!!”

Mas ela garante que, apesar de todos os problemas, seu pai, se estivesse vivo, teria muita alegria em ver a cidade resistindo. “Isso estaria acima de qualquer decepção!”

Olhar – O tombamento de Brasília, muito criticado por alguns setores por “engessar” a cidade, tem sido a única proteção para que o projeto original, criado por Lucio Costa, não seja totalmente descaracterizado. Você defende que a área tombada seja ainda maior do que a atual. Como seria isso?

Maria Elisa Costa:  Com o rolar dos anos, a área urbana do DF se desenvolveu ao sabor dos ventos, misturando projetos urbanos setoriais sem nenhum planejamento de conjunto, incorporando e regularizando invasões etc. etc., ou seja, em termos tradicionais brasileiros – a única coisa nova continua sendo o Plano Piloto da criação da cidade.

Para assegurar a permanência ao longo do tempo desse testemunho vivo de um momento sem precedentes na nossa História, é importante perceber que no Distrito Federal convivem duas situações urbanas opostas e adjacentes: de um lado, extensa área urbana em expansão; de outro, seu núcleo original a ser preservado.

Em termos administrativos, trata-se de duas abordagens necessariamente opostas:
1- uma coisa é gerenciar o desenvolvimento urbano de uma cidade em expansão
2- e outra, bem diferente, tem o objetivo de assegurar a preservação de seu núcleo original.

Cuidar do Centro Histórico é mais simples: uma vez estabelecido institucionalmente que o CENTRO HISTÓRICO DA CAPITAL FEDERAL é a área delimitada pelo divisor de águas da Bacia do Paranoá, basta que toda e qualquer intervenção nessa área, mesmo não sendo localizada dentro do perímetro tombado ou em seu entorno direto, seja necessariamente compatível com o texto original da Portaria 314 do Iphan – cabendo a fiscalização dessa compatibilidade a uma comissão técnica permanente e de alto nível, criada para esse fim e com poder de veto, contando com representantes da sociedade civil organizada, da Presidência da República e do Governo do Distrito Federal.

 É da maior importância para a defesa histórica e cultural do Brasil que possamos proteger o Centro Histórico da multiplicidade de pressões que atuam sobre a área urbana.

Olhar –  O que significam para o plano original de Lucio Costa as grades na Praça dos Três Poderes, as cercas nos pilotis? 

Maria Elisa: As grades na Praça dos Três Poderes são de uma estupidez constrangedora! Você acha que elas impediriam alguém que estivesse, MESMO, a fim de invadir um dos Três Poderes?
Já os ensaios de cercar os pilotis são tolos, e qualquer pessoa pode, por lei, atravessar os pilotis de qualquer bloco. Os moradores dos apartamentos são “proprietários” a partir do primeiro andar!

Olhar – Qual você acha que seria a reação de Lucio Costa hoje numa visita ao Plano Piloto? Ele ficaria satisfeito ou decepcionado?

Maria Elisa: Primeiro, meu pai não foi à inauguração de Brasília, preferiu ser representado pelas suas filhas (Helena e eu). Perguntado pela revista Time por que não foi, respondeu dizendo que preferia dividir a ausência com sua mulher, falecida poucos anos antes. Sobre a impressão que teria vendo Brasília hoje? Com todos os eventuais problemas, o prazer de ver que a cidade que ele inventou está resistindo seria maior do que qualquer decepção!

Olhar – Qual seria a maior queixa hoje em relação a Brasília? 

Maria Elisa: Sobre a queixa que meu pai teria… Não sei.
Já a mim o que incomoda é esta cócega que surge volta e meia de “corrigirem” o Plano Piloto (por exemplo, ontem ouvi uma história de estarem pensando em aumentar o gabarito na W3!). Daí a minha insistência na questão do Centro Histórico: por favor, descubram um lugar no DF para fazer um novo Centro Empresarial padrão DUBAI, onde poderiam fazer o que bem entendessem, e assim deixam o Centro Histórico de Brasília em paz!

Olhar – Qual sua avaliação da frase do governador Rodrigo Rollemberg de que a cidade “está envelhecendo” para justificar a queda de parte do viaduto no Eixão Sul?

Maria Elisa: O fato de a cidade “estar envelhecendo” torna exatamente INDISPENSÁVEL manutenção permanente, cuja falta nos últimos governos me parece flagrante na queda do viaduto. Bruno Contarini, engenheiro de consagrada competência e autor do projeto do viaduto, esclareceu muito bem a causa do desabamento: rachaduras abertas há anos, sem que se tomasse nenhuma providência, deixaram que a água, pouco a pouco, chegasse até as ferragens da estrutura protendida, rompendo os cabos! A meu ver, Bruno Contarini deveria ter carta branca na recuperação dessa estrutura.

Olhar – Qual a sua ligação afetiva com Brasília?

Maria Elisa: Apenas um comentário para explicar minha ligação com Brasília: acontece que eu fui a primeira pessoa que soube como Brasília seria! Na época do concurso para o Plano Piloto, eu estava no 3° ano da Faculdade de Arquitetura, aqui no Rio. Um dia, meu pai me chamou e disse: “Vem cá que eu quero te mostrar uma coisa”. A “coisa” era Brasília! E o que mais me espanta lembrando isso hoje é que não achei nada de extraordinário, nem a mudança da capital nem o projeto dele… O Brasil de JK era assim, confiante, livre…

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2 Comentários

  • Reply
    Paulo Castelo
    28 de fevereiro de 2018 at 11:07

    Quão gratificante é se deparar com esta matéria! É verdade, Maria Elisa Costa, mesmo morando no Rio de Janeiro, é atuante com seus posts e comentários, ora em sua conta pessoal no face, ora em grupos. Cheguei a pensar que ela morava aqui, daí, ela me disse que mora no Rio. Quando o movimento Memorial Renato Russo começou, me lembro de um post dela louvando essa Brasília cantada por Renato Russo, celebrando a resistência ao abandono. É muito triste ver todos os espaços culturais da cidade abandonados. Esperamos que este ano não somente a promessa do governador de revitalizar o espaço, promessa feita durante um almoço na residência oficial, em que esteviram presentes, eu, a família do Renato e o falecido Hans Tramm, que seja feito realmente o que foi prometido, além da revitalização, a sala em homenagem ao cantor, espero que isto de fato aconteça. O que eu puder fazer pra que esta sala tenha o maior número de atrativos para contar sua história, eu farei! Afinal, depois de JK, Renato seria a segunda figura pública que aqui construiu algo que foi e é de extrema importância pra cultura e história não só de Brasília, mas do Brasil, isso é incontestável! Não sei porque, aproveitando a deixa, não existe uma sala no Panteon do Congresso Nacional, em.homenagem e memória ao Dr. Lúcio Costa, fica a dica! Quero poder fazer um apelo ao herdeiro do Renato, Giuliano Manfredini, que doe algumas coisas do pai para este espaço, é de grande importância pra cidade. Estou também entrando em.contato com amigos do Renato que possuem.desenhos, manuscritos, fotos, para que seja doado pra esta futura sala. Desejem-me sorte! Torçamos pra que eu consiga! Parabéns Marcia Zarur e Samanta, por fundir story Telling com notícia e nos encher de orgulho e esperança: vida longa ao Olhar Brasília!

    • Reply
      Marcia Zarur
      9 de março de 2018 at 19:40

      Estamos na torcida pra ver logo este Memorial e os demais espaços culturais da cidade revitalizados. Toda a sorte para vc, Paulo. E vida longa ao Olhar Brasília e às iniciativas de valorização da cidade!!!

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