23 de agosto de 2019
Olhar Brasilia

Acervo pessoal

Espaço convidado

Hortas comunitárias ameaçadas

Convidada: Alda Duarte é moradora da 416 Norte, onde cultiva uma horta comunitária e incentiva ações coletivas da quadra e dos vizinhos. Ela também faz parte do Grupo de Trabalho de Agricultura Urbana do Movimento Nossa Brasília.

Jardins medicinais e comestíveis são hoje, uma tendência mundial para o desenvolvimento de cidades mais humanas e sustentáveis! Jardins medicinais e comestíveis exercem com plenitude a função social das cidades, prevista no Estatuto das Cidades, para humanizar as relações de vizinhança e fortalecer vínculos comunitários.

Brasília é uma das poucas cidades que já conta com uma lei de diretrizes para políticas públicas de Agricultura Urbana, (Lei Distrital 4.772/2012), mas ainda assim, existem administradores de condomínios que extrapolam seus papéis e tentam deliberar sobre a área pública e sobre os interesses comuns e políticos dos moradores.

Criar uma horta em espaço público transcende o simples ato de plantar, incentiva relações de pertencimento e integração comunitária tão necessárias para a governança democrática em cidades. É o que muitos moradores do DF descobriram, embora também, tenham despertado a síndrome dos pequenos poderosos nos que se auto-instituíram lideranças. A autonomia dos moradores em usar o espaço público para plantar ervas aromáticas e hortaliças parece desafiar a suposta autoridade daqueles síndicos e moradores que não compreenderam a pulsação humana nos espaços públicos, outrora abandonados e esvaziados de vida.

Na SQN 216, no bloco H, há dois anos, moradores inspirados pela nova tendência urbana, limparam um pequeno pedaço de terra degradada ao lado do edifício e fizeram um pequeno jardim medicinal e aromático, para fazer seus chás, temperos, fitoterápicos, sem aditivos químicos e tóxicos. Um dos moradores trouxe mudas da Itália e Estados Unidos para enriquecer a variedade de espécies, dali, de seu próprio canteiro. Desde então, moradores e simpatizantes da quadra passaram a plantar, trocar sementes e mudas, cultivar novas espécies de plantas e também, novos amigos.

Nesta semana, num furor de autoritarismo, o administrador do condomínio do bloco H da SQN 216N, que se mantém no cargo há anos, e sequer é morador da quadra, se auto-elegeu em assembléia, se valendo de 27 procurações de proprietários de imóveis, ferindo o direito democrático dos residentes de elegerem seu próprio representante, que tinha maioria dos presentes, ferindo a convenção interna do condomínio.

Não só procurações vieram com o administrador, mas também estranhos guarda-costas para intimidar os presentes. A primeira pauta, após muitos protestos e insultos, foi a retirada da horta comunitária do edifício. Segundo o administrador auto-eleito, a horta precisa ser destruída porque é “feia”, “anti-estética’. Um argumento frequente nos detratores de hortas urbanas, condicionados ao olhar colonizado e elitizado pelo paisagismo urbano, excessivamente ordenado e domesticado por modismos.

Para tentar barrar a decisão unilateral de destruir o jardim medicinal, os moradores do bloco H da SQN 216 fizeram neste domingo, 25/02/18, um picnic ao lado do jardim medicinal, com moradores, vizinhos e simpatizantes da agricultura urbana, em presença dos ativistas do Movimento Nossa Brasília e do presidente do CCAN, Conselho Comunitário da Asa Norte, no intuito de transformar essa ameaça à ação coletiva em mais um grande elo para a comunidade!

Ora, para que exerçamos nosso pleno direito à cidade, o de “nos transformar, transformando os espaços públicos”, hortas, jardins, mobiliário, intervenções artísticas, ocupações que gerem vínculos afetivos com as áreas públicas são fundamentais. Para essa ambiência, relações democráticas são alicerces estruturais que não dialogam com as práticas de gerenciamento de condomínios que se confundem com representação política das comunidades.

Práticas que vem consolidando autoritarismos e falsas representações dos interesses comuns, como repressão a festividades públicas, como o carnaval de rua e fechamento de bares e espaços culturais em Brasília. Não por acaso, muitos prefeitos de quadra são síndicos. Alguns estatutos anacrônicos, assim exigem.

Para que tenhamos uma cultura realmente democrática de direito à cidade, é preciso ocuparmos os espaços públicos e representativos da comunidade que vem sendo negligenciados aos líderes auto-empoderados, sobretudo pela omissão cidadã. – Que tal, ocupar seu bairro com hortas, arte e até mesmo a associação de moradores?

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3 Comentários

  • Reply
    ELSANITA santana
    2018-02-28 at 09:15

    O Brasileiro tem que aprender da valor o seu meio onde vive, se existe horta comunitária, pois o nome já diz tudo, é para as pessoas se aproximarem mais uma das outras, já moramos num caixote de 25 a 400m2 , isolado num valor, então pra que existem parques , jardim e outras coisas boas, vamos nos unir e colocar mais e mais horta comunitária, eu participo com um grupo no bosque sudoeste, uma horta muito linda.

    • Reply
      Marcia Zarur
      2018-03-09 at 19:41

      Isso mesmo! O verde garante a nossa qualidade de vida e o título de cidade parque para a nossa querida Brasília!

    • Reply
      Alda Duarte
      2018-04-25 at 13:58

      Oi Elsanita, ´compartilhemos e contagiemos as hortas comunitárias! Elas já contem por natureza todo esse teor comunitário e integrativo.
      Conheço o trabalho de vocês no Sudoeste, com o Nivaldo, Osvaldo Dalvi e tantas outras pessoas incríveis!
      Estamos juntas!

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