12 de março de 2018
Olhar Brasilia
Espaço convidado

Por quê a Capivara entrou na garagem? E o que isso tem a ver com mobilidade em Brasília?

Convidado: Ronaldo Weigand Jr. é formado em engenharia agronômica, Ph.D. em Antropologia pela University of Florida, consultor ambiental, ativista comunitário do Coletivo 416 Norte e morador da quadra.

Nesta semana, uma assustada capivara foi encontrada na garagem do bloco G da SQN 216. “Tadinha!”, “Que fofa!” reagiam as redes sociais da vizinhança. Mas o que ela fazia lá? Alguns podem pensar que a presença da capivara indica uma recuperação da natureza. Mas é preciso olhar em volta. Na frente do bloco G, a movimentação de máquinas é intensa. Barulhentas e ameaçadoras, movimentam montanhas de terra retiradas das escavações para a construção do Trevo de Triagem Norte (TTN), obra chave do GDF, supostamente para “desafogar” o trânsito na Saída Norte.

Eu já escrevi aqui sobre os erros dessa obra, mas hoje eu quero falar sobre o porquê de a capivara ter entrado na garagem, o que a obra tem a ver com isso e porque a capivara revela o que vamos enfrentar em termos de mobilidade na Ponta Norte do Plano Piloto.

A obra do TTN abriu trincheiras e cortes no terreno para a passagem das pistas que virão da L4 em direção à W3. Esses buracos impedem a passagem de pessoas e animais, como capivaras. No momento, além dos buracos, há enormes montes de terra espalhados por todo lado. Junto com o canteiro de obras, essas mudanças no “relevo” local isolam a beira do lago da SQN 216.

Por alguma razão, a capivara, que costuma ficar na beira do lago, cruzou a L4 e entrou no grande gramado no final da Asa Norte, ao lado da SQN 216. Só podia fazer isso perto da L2, único lugar onde hoje as obras permitem a passagem. Ao tentar voltar, encontrou as obras.

Buracos fundos, montes de terra, caminhões e escavadeiras. Ansiosa por voltar ao seu grupo, procurou saídas. Acabou na SQN 216, perambulando entre os blocos. A passagem de carros e pessoas deve ter assustado o animal, que correu até o final do estacionamento, que leva como um funil para a garagem. E lá ficou acuada até o Ibama vir resgatá-la.

O obstáculo que isolou a capivara de seu retorno ao lago isolará pedestres e ciclistas também, tanto para cruzar da SQN 216 ao lago quanto para cruzar em direção ao Lago Norte. Só haverá passagem sobre as pistas por passarelas em alguns pontos. Não haverá a passagem que havia antes da obra, sobre o gramado e cruzando as pistas, pois as pistas estarão ou em cortes no terreno ou em viadutos.

Assim, perdemos – pedestres ciclistas e capivaras – nosso espaço e liberdade de deslocamento para dar lugar aos carros. O TTN agora nos limita e desorienta, nos obrigará às suas passagens mal planejadas (e que no momento nem existem). Talvez tenha sido por isso que a capivara entrou na garagem: para dizer aos carros que quer seu espaço de volta…

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Um comentário

  • Reply
    Uirá Lourenço
    13 de março de 2018 at 07:20

    TTN – Terrível Trevo Norte.
    Terrível para humanos! Terrível para bichos!

    É insano um modelo de (i)mobilidade baseado na ideia de que todos devem sair de casa no próprio carro. O resultado só pode ser caos, estresse e poluição. Basta parar na ponte do Bragueto por alguns minutos e observar a insanidade. Vídeo com cenas recentes do final da Asa Norte: https://www.youtube.com/watch?v=AVYHurVV3hA
    No vídeo dá para ver também as obras avançando sobre o lago Paranoá. Ou seja, além do modelo equivocado (rodoviarista, de incentivo ao automóvel), que só resulta em caos e estresse, ainda se tem grande devastação, impermeabilização e assoreamento.

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