13 de março de 2018
Olhar Brasilia

Paulo Junqueira

Espaço convidado

Redução da velocidade – todos temos a ganhar

Convidado: Bruno Leite é coordenador-geral da ONG Rodas da Paz e defensor de uma convivência mais pacífica entre pedestres, ciclistas e motoristas nas ruas de Brasília.

Em uma cidade pensada para pessoas, o fluxo dos veículos, assim como a velocidade com que eles se deslocam, deve ser considerado no planejamento e na gestão. Cidades com vias urbanas de alta velocidade inibem, em alguns casos até impedem, a circulação de pessoas a pé ou de bicicleta. Na prática, elas negam aos cidadãos sem carro o direito à cidade.

Mas quem está de carro muitas vezes não compreende a importância dessa medida para a cidade. A velocidade nem sempre é causa primária da batida ou do atropelamento. Mas velocidades mais baixas podem evitar uma colisão e mesmo diminuir a sua gravidade, caso ela venha a acontecer.

Uma das razões é o ângulo de visão periférica do motorista em cada faixa de velocidade. Quanto maior a velocidade, menor o campo de visão. Essa visão é importante para que o motorista fique atento e saiba o que se passa ao seu redor, como o filho de seu vizinho entrando na via correndo atrás de uma bola ou a mãe de um amigo, já com 80 anos, iniciando uma travessia ou se desequilibrando em uma calçada estreita e esburacada.

Além disso, quanto maior a velocidade, maior o tempo de frenagem. Para frear um carro a 60km/h, são percorridos 36 metros até a parada completa. Já a 70km/h, o carro para apenas após percorrer 50 metros. Ou seja, mesmo que você consiga ver o filho de seu vizinho entrando na pista, na sua frente, você pode não conseguir frear e parar o veículo dependendo da velocidade com que você está conduzindo.

Um outro fato importante é a gravidade dos acidentes. De acordo com a literatura internacional, um atropelamento a 64km/h faz com 85% das pessoas morram, 15% sofre lesões e 0% de chance de sobreviver ileso. A 48km/h, há chance de morte de 45%, 50% de sobreviver com lesões e 5% de sobreviver ileso. A 32 km/h apenas 5% de chance de morte, 65% de lesões e 30% de sobreviver ileso.

Ao reduzir a velocidade, temos a impressão, quando estamos dirigindo, que não chegaremos a tempo em nossos compromissos. Essa impressão é individual e superestimada. Se pensarmos friamente, veremos que não faz sentido. Tomando o Lago Norte como exemplo, ao reduzir a velocidade de 70km/h para 60km/h, temos um aumento de 1 minuto e 40 segundos para percorremos todo o bairro. Será que esse 1 minuto e 40 segundos vale uma vida?

Ao dirigir, também temos a impressão de que uma velocidade maior aumentará os engarrafamentos, o que igualmente não é verdade. Em velocidades menores, diminuímos a distância de segurança entre dois veículos, o que permite que mais carros percorram a mesma distância no mesmo intervalo de tempo.

Ou seja, o trânsito flui mais com velocidades menores. Outro ponto é que as vias de nossas cidades possuem os famosos gargalos, quer dizer, andamos em vias de 4 pistas e de repente elas se transformam em pista única. Velocidades maiores farão com que os carros ao chegarem até esse ponto diminuam drasticamente a velocidade e lá fiquem travados, enquanto em velocidade reduzida os carros vão chegando aos poucos e passando pelo gargalo, como mostram experimentos.

As cidades e os sistemas viários devem ser pensados para as pessoas e por isso devem considerar a fator humano, como uma criança atravessando a rua sem olhar, um idoso se locomovendo com dificuldade ou mesmo um ônibus que parou fora do ponto e os passageiros foram obrigados a descer em local inadequado. Capaz de respeitar e conviver com essas situações sem causar mortes. É com esse raciocínio que a Organização Mundial da Saúde recomenda que vias urbanas não devam ter velocidades superiores a 50km/h.

Esse conhecimento já é consolidado pela engenharia de trânsito em diversos trabalhos científicos e no dia a dia de diversas cidades mundo afora. Em Nova York, desde 1995 o limite de velocidade na cidade já era de 48km/h. Em 2013, esse limite foi reduzido para 40km/h. Em Londres, a velocidade nas áreas mais centrais chegou a 32km/h. Em cidades mais próximas a nós, como a Cidade do México, existem zonas de 20km/h, perto de hospitais, escolas e asilos, zonas de 30 e 40km/h em vias secundárias e de trânsito mais calmo, e de 50km/h nas principais vias. Aqui no Distrito Federal também temos exemplos. Em Águas Claras, por exemplo, a redução para 50km/h fez com que não houvesse nenhuma morte no ano de 2017.

Recentemente, o Detran/DF e o DER/DF reduziram a velocidade de determinadas vias do DF. O trabalho segue toda uma lógica técnica e profissional com o intuito de se reduzirem as mortes no trânsito. Registro aqui os parabéns a essa iniciativa de proteção à vida e de direito à cidade, e fico esperançoso no compromisso do governo de ampliação dessas medidas para outras vias de nossas cidades.

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