5 de agosto de 2020
Olhar Brasilia

Fotos: Daniel Mangabeira

Espaço convidado

SQS 402: pré-fabricação e eficiência energética na década de 70

Convidado: Daniel Mangabeira é brasiliense nascido em Itabuna, arquiteto formado pela UnB em 1999, sócio do BLOCO Arquitetos, um dos criadores do @brasiliamoderna e atual presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do DF (CAU-DF).

Alguns blocos da 402 Sul deveriam ser iguais, mas não são. Reformas de portarias, acréscimo de guaritas e até mesmo mudanças completas no pilotis fazem projetos originalmente idênticos se diferenciarem e adquirirem qualidades arquitetônicas distintas e duvidosas. Os edifícios que mantiveram os revestimentos são claramente mais bonitos, apesar do mau estado de conservação.

Projetados pelo arquiteto Celso Lelis para o Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis – DNPVN, os blocos A, L, M, N,O Q e R da SQS 402 foram construídos pela Construtora Rabello em 1976.

Precisão técnica e cuidado com insolação foram determinantes na definição do processo construtivo e consequentemente no resultado estético desses edifícios. Apenas as torres de circulação vertical e o pilotis foram executados no canteiro de obras, todo o restante foi pré-fabricado pelo construtor, incluindo as paredes internas e as fachadas, que são formadas por grandes painéis portantes.

Alterações malsucedidas são comuns a quase todos os blocos analisados: a laje pintada com a famigerada cor que imita concreto, a textura de grafiato nas empenas e as caixas de escada pintadas apenas no pavimento térreo são apenas algumas das alterações grosseiras. Poucos blocos mantêm o piso original de cerâmica preta com formato retangular, muitos já mudaram para o genérico e comum granito polido.

A despeito de essas modificações alterarem negativamente o projeto, a arquitetura dos edifícios mantém seu vigor e sua potência. Grande parte dessa força decorre do brise, elemento de proteção solar amplamente utilizado na arquitetura moderna e aplicado por Celso Lelis na fachada frontal e posterior. Ali os brises verticais são formados por painéis de concreto pré-fabricados que sacam das empenas e sustentam os brises horizontais de aço, criando desenhos de luz e sombra, que modificam constantemente as fachadas durante o dia.

O pilotis livre é um grande salão de festas aberto, ventilado, iluminado naturalmente e com qualidade espacial inquestionável. Nesses edifícios, o arquiteto concentrou os cômodos do térreo em área próxima ao estacionamento, deixando o grande espaço livre de uso social próximo às áreas ajardinadas. Há, no entanto, um bloco que reformou o pilotis e colocou uma guarita no meio do ambiente, dividindo o térreo em duas áreas menores.

Reformas são necessárias para adaptar a construção a novas tecnologias, adequar edifícios a novas regras e acomodar novas necessidades, mas uma boa reforma é feita com critério e respeito ao projeto original, principalmente quando este é de qualidade comprovada.
Resta saber se a próxima reforma de algum desses blocos restaurará o belo projeto criado na década de 70 ou se continuará a desfigurar uma ideia tão simples e autêntica.

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Um comentário

  • Reply
    Durcemar Martins
    2018-03-19 at 20:41

    Realmente um belo projeto. Celso Lelis, um grade arquiteto. Alguém sabe do paradeiro dele?

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