22 de julho de 2019
Olhar Brasilia
Samanta Sallum

Bem-vindos à minha casa, desculpem qualquer coisa…

Caros visitantes, 

Não sei bem como recebê-los. Gostaria que me conhecessem melhor, mas eu mesma não sei se me conheço e também não sei bem o que vieram fazer aqui. Tentei me preparar para a chegada de vocês, mas a casa dá sinais de que não está tão em condições assim… Sou conhecida pela bela e arrojada arquitetura. Este ano, completo 30 anos do meu tombamento. Sim, sou Patrimônio Cultural da Humanidade! Mas pouco se falou e se celebrou isso por aqui.

Aos 58 anos, ando tendo alguns sustos. Minha saúde não vai nada bem. A casa também não é cuidada há anos. Confesso que minha beleza se sustentou durante um bom tempo graças exclusivamente à juventude. Comparada a cidades seculares, sou um bebê. Mas comparada a mim mesmo, não, não sou mais nenhuma mocinha… Meus cuidadores foram displicentes e receio pelo meu futuro. 

A maquiagem já não faz efeito como antes. As rugas e rachaduras são explícitas… Tenho medo de ficar decrépita, caótica como umas e outras por aí… Ter idade não é sinônimo de descuido…        

É uma honra recebê-los, caros visitantes! Pena que não sei se na melhor hora. Nossa, quanta gente: 8 mil representantes de 150 países para debater a gestão de recursos hídricos no planeta, no 8• Fórum Mundial das Águas. Ops! Mas aqui está faltando água! Mas não se preocupem! Vão dar um jeitinho! Vão suspender o racionamento na região em que se encontram. Nas suítes de vocês não faltará água para tomar um banho quente nem para escovar os dentes. Eu não mereceria passar essa vergonha!

Uma tal Copa do Mundo passou por aqui, há 4 anos, trazendo um monte de gente, um monte de gringo. Vivemos dias de badalação, emoção e tensão também. Mas hoje nem parece que ocorreu. Muita gente fez foto comigo dizendo que me amava! Mas logo me esqueceram… Agora, vocês chegaram de novo para nos lembrar de que sou importante, que tenho uma missão especial a cumprir para o meu país: sou a capital do Brasil, de todos os brasileiros! Obrigada por me lembrar disso!

Sim, eu posso e gostaria de ser a melhor anfitriã. Mas me falta certa altivez, certa autoestima, às vezes, para agarrar isso. Eu me sinto um pouco menosprezada pelo meu país. Me fazem sentir sem atrativos perto do Rio de Janeiro, de São Paulo, Salvador… Mas eu os tenho e muitos! Mas não me valorizam… 

Pena que a gente não pode recebê-los sem confusão no trânsito, buzinaço, sem provocar transtornos aos que moram aqui. Não deveria ser assim. Mas os anfitriões oficiais, “os cuidadores”, às vezes se esquecem de combinar as coisas com a população. O brasiliense se irrita quando vê a cidade confusa. E a culpa não é de vocês, visitantes! É nossa mesmo, que nos atrapalhamos com essa coisa de planejamento. Não é muito o nosso forte.

Ah, mas vocês já ouviram falar que somos gente boa e gostamos de ajudar. Que aqui a gente faz milagre e Deus sempre ajuda, então no fim dá tudo certo! Espero que seja assim mais uma vez. Ainda bem que a queda de parte do viaduto no Eixão Sul não provocou feridos e aconteceu antes de vocês chegarem. Eu não acredito no que eu estou passando… 

Olha, a gente quer melhorar. É sempre bom receber visitantes para sacudir a poeira e chamar a atenção que precisam de cuidar mais de mim! Espero que levem boas lembranças daqui. Obrigada por terem vindo. Me ajudem a valorizar mais a minha casa. Eu sou bonita, simpática, dizem que sou difícil, mas isso não é verdade! Tenho muita história para contar, posso ser divertida e agradável. Não me falta vida, apesar dos maus-tratos comigo. Aproveitem e voltem sempre! Espero que cuidem melhor de mim e que, da próxima vez, eu esteja ainda mais acolhedora!

Carinhosamente, Brasília

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2 Comentários

  • Reply
    Paulo Vellozo
    2018-03-23 at 15:31

    Confesso que esse texto me sensibilizou muito.

  • Reply
    Jorge Guilherme Francisconi
    2018-03-23 at 17:27

    Brasília – variações sobre tema de Samanta.

    Fui concebida, nos anos 50, para ser símbolo e síntese do Brasil Novo que JK criava. Fui inventada por Lúcio Costa para ser civitas nacional, cidade símbolo dotada de monumentalidade e que abrigasse a história, o saber, a cultura e os anseios da nação brasileira. Meu destino era mostrar a grandeza do Brasil para o mundo, como fazem Camberra e Sidney na Austrália, Washington nos EEUU, Ottawa no Canadá, Paris quanto à França e seu passado milenar.
    Mas, ao longo do tempo, mudaram meu destino. Os geniais fundamentos urbanísticos de Lucio foram abandonados e esquecidos. A civitas tornou-se o coração de metrópole que cresce e incha desordenadamente, sem rumo e sem destino.
    Fui abandonada por presidentes, governadores e legisladores, que me tratam como sendo só uma fonte de poder e dinheiro.
    Não entenderam que fui construída para ser cidade-símbolo da nação brasileira, com praças, monumentos, museus e prédios que retratem e mostrem aos brasileiros e estrangeiros a diversidade e a grandeza do nosso Brasil. Como nada fizeram, governantes cariocas, paulistas e mineiros estão ocupando este espaço.
    Minha Esplanada poderia ser similar ao Eixo Louvre – Arco do Triunfo em Paris ou ao Mall de Washington. Embora projetada para isso, nada foi feito. Nem mesmo os projetos de Lucio para humanização da Esplanada foram concluídos.
    Ao ler redes sociais sinto-me um pavão exaltado pela beleza das plumas. São lindas as fotos das paisagens natural ou criadas por Lucio e Oscar. Assim como prosperam e tem sucesso as estórias e histórias sobre minha concepção e meus primeiros anos. Mas ninguém pensa no meu futuro.
    Eu, Capital Civitas dos brasileiros, que nasci para ser milenar, vejo minhas penas perderem sua força, meu corpo debilitar-se, minhas pernas e meus pés sendo corroídos por cracas e pelo abandono. Não estou mais conseguindo caminhar rumo ao destino para o qual fui criada. Há nódulos e vazios que corroem minhas funções, os “aluga-se” atacam a saúde de áreas vitais. Recebi, faz pouco, o diagnóstico de cidade sem destino, sem samba-enredo, sem DNA. Minha saúde piora na medida em que vou sendo ocupada de forma desordenada, segundo os impulsos de cada vento dominante. Esquecem que sou Capital da Nação e metrópole do Centro-Oeste. Ainda que alguns fundamentos de Lucio sejam usados para conservar o que já existe, ele não é lembrado para planejar meu destino.
    Como nasci para ser milenar, talvez um dia serei lembrada como “aquela civitas mísera e mesquinha, que só depois de séculos tornou-se cidade-rainha” do Brasil. Ou talvez isso nunca aconteça…

    Enviado do meu iPad

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