17 de setembro de 2019
Olhar Brasilia

Fotos: acervo pessoal

Espaço convidado

O super herói Enzo, uma criança feliz!

Convidada: Sandra Bacelar, 49 anos, radialista, fonoaudióloga e mãe do Enzo, autista diagnosticado aos 18 meses. Esta é a carta que ela manda para os pais dos coleguinhas do Enzo, no início do ano letivo.

Eu sou o Enzo, tenho 6 anos, sou autista, sou uma criança feliz! Tenho algumas particularidades que vocês irão conhecer ao longo deste ano. Meu sistema sensorial é diferente, isto quer dizer que alguns de meus 5 sentidos são alterados, consigo sentir tudo com muito mais intensidade que você.

Minha mãe brinca que sou um super herói e que minha visão, olfato, paladar, audição e tato são em 3D. Às vezes o som muito alto dói, aí coloco os meus dedos no ouvido para diminuir a intensidade com que esses sons chegam até meu sistema auditivo. Isso não significa que não quero ouvir você, só estou tentando controlar o volume. Às vezes todos os sons misturam-se, e é como se eu não tivesse um filtro para organizar cada estimulo sonoro, então tudo vira uma verdadeira confusão.

Às vezes ouço sua voz, mas também ouço junto a voz do meu colega, um grito que venha da quadra, o barulho da caneta tocando o papel, os passos de alguém andando… Tenho muita dificuldade em separar esses sons e focar em apenas um. E isso talvez venha a me deixar incomodado, desconfortável, às vezes é demais para mim.

Gosto muito de texturas diferentes elas provocam sensações diferentes e muitas vezes gostosas, por isso sempre estou sentindo tudo com meus dedos. Meu paladar também é bastante aguçado, não agüento coisas geladas como sorvete, nem muito doce, nem muito salgado, bebidas quentes também. Se para você, por exemplo, um sorvete pode provocar uma sensação desconfortável, para mim uma lambida é como se estivesse colocando um iceberg na boca.

Como ainda não falo, minha mãe agora está buscando alternativas para que eu possa me comunicar, porque minhas demandas aumentaram e fico frustrado quando quero alguma coisa e não consigo expressar; então eu choro, mordo minha mão, mas não se preocupe, logo passa.

Gosto muito de pular. Pular me faz bem, libera energia principalmente quando estou muito feliz. Gosto de crianças! Acho-as interessante, mas não sei muito bem como chegar até elas. Não sei brincar como elas brincam. Observo… Sempre estou atento a tudo que acontece a minha volta.

Uma vez alguém disse que eu nasci adulto, e que eu precisava aprender a ser criança, e que vocês poderiam me ajudar muito. Eu não consigo falar, mas eu consigo sentir, eu faço parte deste mundo, o mesmo que o seu. E talvez nossas diferenças não sejam tão grandes assim, se você puder me compreender.

Temos mais uma ano pela frente, e mais etapas a serem vencidas por todos nós. Sempre ouço minha mãe falar que não preciso ter vergonha de quem eu sou. Eu sou o que sou, e ela sempre me diz que serei capaz de fazer o que eu quiser, e que eu sou forte.

Ela e meu pai me aceitam, minhas irmãs me aceitam, minha família toda aprendeu de alguma maneira a lidar comigo. Ela luta, ao seu modo, para que todas as crianças como eu sejam amadas. Ela acredita que todos nós podemos viver neste mundo de maneira harmônica, e que cabe aos pais ensinarem a seus filhos que um mundo melhor só depende da gente.

Vamos aprender muito com seus filhos e esperamos que todos vocês, no final do ano, levem um pedacinho de mim. Esse pedacinho representa todo amor que carrego comigo. Feliz ano novo escolar para todos nós!

 

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