13 de abril de 2018
Olhar Brasilia

Acervo pessoal

Espaço convidado

Uma História de Luta! 30 anos do tombamento da Vila Planalto como Patrimônio Histórico do DF

Convidada: Leiliane Rebouças é bacharel em Relações Internacionais e moradora da Vila Planalto. Uma voz sempre atuante em defesa da cidade e da preservação do patrimônio.

Imagine como é viver sob o risco iminente de ser retirado da única casa que você possui e onde você vive há décadas desde que chegou à cidade que ajudou a construir, na casa onde nasceram os seus filhos…

Imagine que na casa que lhe foi entregue para morar você não pode trocar nem uma tábua apodrecida, nem bater um prego, nem aumentar um cômodo para abrigar mais um membro da família. Pois, se fizer isso, os fiscais da Terracap poderiam tomar o material de construção, ou te expulsar da casa á revelia…

Imagine o pavor de ter seus bens retirados à força e colocados em um caminhão, e você ser deixado ao relento com sua família. Como se a espada de Dâmocles estivesse pairando sob a sua cabeça. De 1960 até 21 de Abril de 1988, era assim que viviam os meus pais e as mais de mil famílias dos acampamentos da Vila Planalto, do Mocó, do Maracujá e dos Anexos (onde hoje é o Projeto Orla). Eles não tinham certeza se veriam o próximo luar naquele mesmo lugar.

A Vila Planalto é um reduto de pioneiros, ela surgiu quando foram instalados os primeiros acampamentos para a construção de Brasília. As duas primeiras construtoras a se instalarem no local hoje conhecido como Vila Planalto foi a Rabelo e a Pacheco Fernandes.

Ambas, trabalhariam na construção do Brasília Palace Hotel e do Palácio da Alvorada respectivamente, e cujas obras foram iniciadas em 1956, antes mesmo de ser escolhido o projeto do Plano Piloto.

Após escolhido o projeto de Lucio Costa, as demais construtoras foram orientadas a construir os acampamentos naquela área por estar próxima às obras da Esplanada dos Ministérios. A Vila, naquela época era constituída por 22 acampamentos e ocupava uma área de 320 hectares abrangendo a região atrás do Palácio do Planalto, todo o Setor de Embaixadas Norte, a região do Iate Clube, e ia até próximo à Concha Acústica.

Durante as décadas de 1970 e 80, o controle sobre o território impediu o crescimento da Vila Planalto reduzindo-a a um quinto do seu espaço original. À medida que encolhia, a Vila perdia toda a infraestrutura que possuía na época da construção de Brasília: supermercado da SAB, Cinema, Clubes de operários e dos engenheiros, Hospital, farmácia… etc.

Além disso, os moradores temerosos pela constante fiscalização e vigilância da Terracap evitavam fazer melhorias em seus barracos, o que contribuiu para a decadência das edificações dando um aspecto de favelização especialmente na área central da vila.

Hoje, restam apenas seis acampamentos: Pacheco Fernandes, Rabelo, Ebe, DFL ( ou Defelê, Departamento de Força e Luz atual CEB), Emulpress e o Tamboril (acampamento da Raymond Concret Pilow , empresa americana responsável pela estrutura metálica dos prédios da Esplanada dos Ministérios).

A Vila Planalto resistiu ao tempo e às mudanças ocorridas na nova capital. Um dos motivos que contribuiu para a sua permanência foi à arborização intensa que cobria grande parte dos telhados das casas, escondendo os acampamentos.

Além disso, na periferia da Vila havia casas de pessoas com maior poder aquisitivo, cujas madeiras eram de boa qualidade e esses moradores tinham tratamento diferenciado pelos fiscais da Terracap, não sofriam as mesmas sanções que os ex-operários pobres que residiam em barracos germinados e alojamentos.

Por volta de 1982 começaram a surgir as primeiras associações e entidades que reivindicavam melhorias e a permanência da Vila. Porém, havia muita disputa de interesses internos entre as lideranças que tinham pouca representatividade. Os conflitos e divergências de interesses enfraqueciam o movimento, e isso contribuiu para que o governo de José Ornellas protelasse decisões e emperrasse o processo de fixação.

Em 1984 surgiu um novo movimento na Vila Planalto que foi muito importante para unir um numero bem significativo de moradores em torno do objetivo comum que era o de garantir a moradia para todos. O Grupo de Oração e Reflexão, liderado por Antônio Donizete e Maurício utilizava os ensinamentos e estratégias dos movimentos eclesiais de base para conscientizar a população dos seus direitos e promover a cidadania.

O Grupo se reunia toda semana as segundas-feiras na casa de algum morador, rezava o terço, e faziam reflexões políticas à luz da Bíblia. O povo de Deus que andava no deserto em busca da terra prometida era comparado ao povo da Vila Planalto que também ansiava pela permanência na Vila, onde queria morar definitivamente – sua terra “prometida”.

Donizete utilizava a música para conscientizar o povo, e fazia paródias como essa da jardineira:

“Oh companheiro por que estás tão triste? Mas, o que foi que aconteceu? Vila Planalto vai ser retirada, sem luta, sem nada, nós vamos perder! (bis). Vem companheiro, vem meu irmão! Não fique triste porque a Vila é toda nossa, contra esse povo unido não há governo que possa!(bis)”.

Nessa mesma época, o Centro de Desenvolvimento Social –CDS criou na Vila o Cebem – Centro de Bem estar do Menor, e as assistentes sociais perceberam que seria muito difícil mudar a situação das crianças da Vila se elas permanecessem numa situação de extrema pobreza, em um local que não tinha o mínimo de infraestrutura e saneamento básico, com esgoto correndo nas portas das casas.

Grupo das Dez

Elas incentivaram a criação de um clube de mães e daí surgiu o “Grupo das Dez”, grupo de donas de casas que decidiram lutar pela fixação da Vila Planalto e por melhorias para a comunidade. A maioria das integrantes do grupo também pertencia ao Grupo de Oração, e não eram apenas mulheres que participavam das reuniões.

Embora alguns maridos não vissem a participação política das suas esposas com bons olhos, devido ao machismo reinante na época, pois à mulher era reservado apenas dominar o espaço privado de suas casas: a cozinha.

O Grupo das Dez recebeu esse nome porque foi fundado por dez mulheres: Maria Albaniza (minha mãe), Leila Regina (minha irmã), Ana Lúcia (esposa do Donizete), Maria Vicentina (conhecida como Maria do Chapéu), Wanda Corso, Aparecida Arantes, Iara Lúcia, Ercilia, Icila Damasceno, Maria Benedita (Bené), Maria Soberana, e Fia.

A maioria dessas senhoras levavam as suas crianças para as reuniões e elas ficavam brincando enquanto as mães discutiam os problemas da comunidade. A única criança que em vez de brincar ficava prestando atenção ao que elas falavam nas reuniões era eu, e ás vezes ainda dava pitacos.

Percebi que um dos maiores obstáculos da comunidade da Vila Planalto era ter uma representação política que conseguisse levar nossas reivindicações para o Governo do Distrito Federal e ser atendida. Na minha mentalidade de criança quem resolvia todos os problemas do país era o Presidente da República, então o problema da Vila Planalto deveria ser levado à ele.

Eu já tinha ouvido minha mãe falar que tinha visto na TV uma pessoa burlar a segurança do Presidente para pedir uma casa, então tive a mesma idéia e levei à reunião: “- E se a gente levasse esse assunto para o Presidente da República? Não é ele que resolve tudo no país?” disse eu inocentemente. – “Está louca , menina? A gente não consegue chegar nem no governador, que dirá no Presidente!”

Não desisti da idéia e com a ajuda da minha mãe e da minha irmã decidi escrever uma carta ao Presidente onde eu explicava o drama dos pioneiros da Vila Planalto. Nela eu escrevi que os órgãos competentes diziam que vivíamos em uma área nobre e sendo assim, nós não teríamos vez!

Também escrevi que meu pai igual a muitos outros que aqui residem estão nesse acampamento desde a construção de Brasília, todos aqui tem uma história formando assim a História viva de Brasília. Expliquei que vivíamos em míseros barracos, com esgotos correndo em nossas portas e sem o mínimo conforto e pedi em meu nome e de todas as crianças a fixação da Vila Planalto com direitos iguais (temia que os ricos tivessem privilégios em detrimento dos mais pobres).

Pedi a minha mãe que me levasse a Praça dos Três Poderes para que eu pudesse entregar a carta quando o Sarney descesse a rampa numa sexta- feira. E obviamente minha mãe não queria me levar. Até que fiz um amigo da família convencê-la.

No dia 18 de julho de 1986 fomos à pé até a Praça dos Três Poderes onde burlei a segurança do Presidente e entreguei a carta chamando atenção nacional para o drama dos moradores da vila sob risco iminente de expulsão. Fui noticia em todo o país!

Alguns dias depois, Sarney respondeu á minha cartinha com um bilhete. Ele havia encaminhado o assunto ao Governador de Brasília, José Aparecido de Oliveira. Aparecido, por sua vez, mandou um funcionário à minha escola entregar uma carta onde ele dizia que o Presidente da República havia recomendado que ele conversasse comigo para chegar a uma solução para a Vila Planalto.

E assim, aos 10 anos de idade fui designada a representante dos pioneiros da Vila Planalto para negociar a fixação da Vila. E então, levei comigo para a audiência com o governador, o Grupo das Dez.

Ali, no Palácio do Buriti, tomando coca-cola sentada no colo da Márcia Kubitschek, filha de JK que havia ido conversar com o governador sobre sua intenção de ser candidata á deputada federal nas eleições, José Aparecido me contou sobre as intenções dele em tornar Brasília um Patrimônio Cultural da Humanidade.

Tive uma verdadeira aula de educação patrimonial. Ele concordou comigo sobre a importância histórica da Vila Planalto. E houve uma convergência com o trabalho do GT Brasília, que identificou que a Vila Planalto era, na época, um dos acampamentos pioneiros que havia mantido as características da construção de Brasília e cuja população foi testemunha ocular da História e a transmitia para seus filhos e netos. Isso então justificava não apenas a sua permanência como também seu tombamento.

Durante os dois anos seguintes, a comunidade da Vila Planalto se uniu em torno da luta pela fixação tendo uma forte liderança composta pelas mulheres do Grupo das Dez, e os membros do grupo de Oração, e em tudo eu era colocada a frente, em razão da grande repercussão da minha carta. Isso não quer dizer que não havia conflitos e nem divergências com outras associações e entidades! Teve reuniões que saíram até cadeiradas!

Nosso grupo era forte porque não tínhamos nenhum atrelamento político com nenhuma agremiação partidária e nós fomos inteligentes: usamos as pretensões dos candidatos nas eleições em favor da nossa comunidade! Em vez dos políticos nos manipularem, nós manipulamos os políticos!

Entre 1986 e 1998, conquistamos todas as entidades da Vila Planalto, elegemos um dos membros do Grupo das Dez , Wanda Corso, para Prefeitura Comunitária, e elegemos os Presidentes da Associação de Moradores que eram comprometidos com nossa causa. Além disso, fizemos uma campanha constante de reconhecimento da nossa condição de pioneiros nos veículos de comunicação de Brasília, o que permitiu que reivindicássemos não apenas o nosso direito de permanecer nas nossas casas,mas, também de preservar a Vila Planalto.

Aniversário de tombamento

Toda a nossa luta foi coroada com vitória no dia 21 de Abril de 1988, quando foram assinados os Decretos 11.079 e 11.080 que fixou os moradores e tombou a Vila Planalto como Patrimônio Histórico do DF.

Infelizmente, a ausência de uma política de preservação eficaz e o relaxamento na fiscalização por parte dos governos que sucederam José Aparecido fez com que a Vila Planalto perdesse as suas principais características urbanísticas de acampamento da construção de Brasília.

E a Vila aos poucos vem perdendo as melhorias que conquistamos com muita luta: não temos mais escola, o posto policial foi retirado, bem como os caixas eletrônicos dos principais bancos, o Centro de Saúde perdeu especialidades para dar lugar à equipe da Saúde da Família que é ineficaz (nunca vieram à minha casa, nem na vizinhança) e cuja comunidade não foi ouvida nas suas reivindicações. E até hoje aguardamos, sem sucesso, a restauração das casas de madeira do Complexo da Fazendinha, que são os únicos registros que restam da época da construção de Brasília na Vila, além da igrejinha.

A maior perda para a Vila Planalto foi o fato de após a conquista da moradia, a comunidade ter se desmobilizado. Algumas lideranças novas que surgiram tornaram-se cabos eleitorais de políticos sendo cooptados em troca de favores e cargos comissionados na administração pública para si e para seus familiares.

Assim sendo, grande parte dos moradores já não atendem aos apelos de mobilização porque não reconhecem a credibilidade e representatividade de “pseudo-líderes” que usam a comunidade para a realização de seus próprios interesses políticos.

Meu desejo nesses 30 anos de tombamento da Vila Planalto é que nos próximos 30 anos tenhamos governos verdadeiramente comprometidos com a preservação do Patrimônio Histórico de Brasília e não percamos os registros de memória dos pioneiros que ainda resistem e vivem aqui.

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5 Comentários

  • Reply
    DANIELA S SIQUEIRA
    13 de abril de 2018 at 11:53

    maravilhos texto !!

  • Reply
    DANIELA S SIQUEIRA
    13 de abril de 2018 at 12:03

    maravilho texto !!

  • Reply
    Tânia Battella
    13 de abril de 2018 at 20:44

    Leiliane, parabéns pelo textemunho de uma luta bem sucedida. Também lamento não haver política correta de proteção, preservação e recuperação do Patrimônio.

  • Reply
    Leiliane Rebouças
    18 de abril de 2018 at 18:33

    Obrigada pelos elogios , Tânia e Daniela!

  • Reply
    Jaira leite
    18 de abril de 2018 at 22:47

    Tenho orgulho da luta de cada pioneiras e pioneiros que fizeram a diferença nesta comunidade.
    Você tem meu respeito!

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