11 de maio de 2018
Olhar Brasilia

James Margerum

Lá na minha rua

No mundo de rodas velozes, todos somos vítimas

“Entre os graus 15 e 20  – Quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.” São João Bosco, santo italiano fundador da Congregação dos Salesianos –  1883

Então, um pássaro de pedra cravado no Cerrado do Planalto Central do Brasil surgiria em 1960. E continuando a história, que começou lá na profecia de Dom Bosco, viveria ali, em meio àquela construção ousada e futurista, uma espécie colada em rodas, orgulhosa de cada ser ter o seu próprio equipamento de rodas velozes. Muito velozes!

Sentiriam-se deuses ao deslizar, rapidamente, pelas largas vias daquela nova cidade. Mas o que parecia um presente do “progresso” se transformaria numa das maiores maldições para aqueles habitantes. As rodas, que pareciam asas, provocariam muitas mortes, tristeza e sofrimento.

Uma cidade ousada, fantástica, mas que tinha sua população ameaçada pela proliferação de tantas rodas impulsionadas por potentes motores, que viraram armas fatais.

“50 anos em 5”

A história de Brasília poderia ser contada um pouco assim, de forma fantasiosa, mas que retrata uma realidade. Brasília e o carro foram feitos um para o outro. A capital federal foi criada a partir de um plano urbanístico centrado na circulação de automóveis em uma época, fim da década de 1950, em que essa alternativa parecia fazer sentido.

A cidade foi concebida a partir da lógica “50 anos em 5”, comprometida com o rápido desenvolvimento econômico, e sua construção coincidiu com a entrada das grandes montadoras automotivas no Brasil.

A violência no trânsito é um aspecto dessa relação que mobiliza a sociedade brasiliense desde a campanha Paz no Trânsito, de 1996, que fez da capital federal referência de civilidade e educação no trânsito com o respeito à faixa de pedestres. A Lei Seca, de 2008, foi outro marco e incluiu a frente contra o coquetel mortal de álcool e trânsito nessa batalha.

O Distrito Federal enfrentou a violência no trânsito para virar referência de civilidade no setor. Esse é um patrimônio de cidadania da nossa capital que está ameaçado! Mas algumas fortes ações estão sendo realizadas para impedir que a barbárie no trânsito volte em nossas vias.

Brasília Vida Segura e Maio Amarelo

Desde 2016, o programa Brasília Vida Segura, uma parceria da Cervejaria Ambev com o Governo do Distrito Federal (GDF), faz parte dos esforços para reduzir pela metade a quantidade de mortos e de feridos em acidentes de trânsito até 2020.

Esse objetivo está na agenda das Nações Unidas (ONU) para a Década da Ação para Segurança no Trânsito (2011-2020), lançada exatamente no dia de hoje, 11 de maio, em 2011, e que promove, ao longo deste mês, a campanha de conscientização de trânsito Maio Amarelo.

Este ano, o lema da Maio Amarelo é “Nós somos o trânsito”. A proposta é conscientizar que todos estão envolvidos e de sua importância no ecossistema do trânsito em ações de segurança e educação. E nós do site Olhar Brasília  nos sentimos incluídos nisso.

Por isso, iniciamos hoje a série Brasília Vida Segura para mostrar o ponto de vista de brasilienses motoristas, pedestres, ciclistas e motociclistas sobre os desafios e bons exemplos do trânsito da nossa cidade. Em seu primeiro ano, no trânsito, as iniciativas integradas do Brasília Vida Segura salvaram 134 vidas — de 390 mortes em 2016, o número caiu para 258 em 2017. 

Os Mulefas

A dependência do uso de rodas dos automóveis pelo brasiliense faz lembrar os mulefas, espécie inventada pelo autor britânico Philip Pullman na trilogia “Fronteiras do Universo”. Eles utilizam “sementes-roda” nas patas para se locomoverem. A relação deles com as árvores de onde vêm as rodas é muito importante para a sobrevivência.

Seríamos nós brasilienses os mulefas? Só que dependentes de rodas de borracha e metal viciados em velocidade?! Não, não podemos ser! Temos de nos rebelar. Podemos, sim, viver sem rodas ou com outros tipos de rodas, como as das bicicletas. Já temos uma geração de brasilienses trocando as rodas dos automóveis pelas das bikes.

Sim, nosso transporte público também é precário. E parece uma cruel divisão entre os “mulefas” com rodas próprias e os que dependem das coletivas. Mas isso tem de mudar e pode mudar.

No nosso universo, passados 58 anos da fundação de Brasília, em 1960, manter esse modelo de cidade sobre rodas motorizadas é insustentável.  Afinal, o trânsito é feito por motoristas, motociclistas e passageiros de coletivos, mas também por ciclistas e pedestres. É um espaço coletivo de convivência e comunicação em que pessoas, veículos e animais se movimentam.

Um ecossistema que integra o rol dos direitos e deveres individuais e coletivos previstos pela Constituição de 1988 (Art. 5, inc. XV). Vamos “olhar” para essa teia que conecta de alguma forma todos os brasilienses na série que começa hoje. O trânsito é a nossa interseção. E nele nossa vida é contada todos os dias. Nos acompanhe!

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