14 de maio de 2018
Olhar Brasilia
Espaço convidado

Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento: será mesmo que Brasília é a terra da boa comida e do serviço ruim?

Convidado: Régis de Godoy-Rocha, 42 anos, é jornalista e um brasiliense do quadradinho que rodou o mundo para descobrir que o seu lugar é aqui mesmo.

“Brasília é a cidade dos garçons surdos e cabisbaixos”, me disse certa vez um amigo paulistano que frequentemente visita a capital federal. Mal-acostumado ao serviço sempre muito profissional, dinâmico e prestativo que costumeiramente se vê nos bares e restaurantes de São Paulo, ele me contava as agruras por que já tinha passado em estabelecimentos brasilienses. “Já tive que ligar a lanterna do celular e mirar na cara do garçom para conseguir ser atendido”, ele desabafou.

Embora tenha imediatamente concordado com ele, confesso que, por bairrismo, resisti admitir a falha e tentei articular uma justificativa. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, a nossa atenção foi desviada para uma garçonete que descia uma escada trazendo uma bandeja repleta de drinks.

Vendo que um dos copos insistia em derramar por estar muito cheio, ela não titubeou: parou ali mesmo e deu uma bicadinha para dar um jeito no excesso de bebida. Depois, mais segura e aliviada, terminou de descer os degraus e foi bem faceira entregar a bebida ao cliente desavisado que acabaria por beijá-la na boca por tabela.

Esse episódio se deu numa casa que, como muitas outras na cidade, teve uma sobrevida relativamente curta no constante abre e fecha de bares e restaurantes em Brasília. O lugar tinha tudo para dar certo: a localização era boa, numa quadra concorrida da Asa Sul; tinha sido reformado havia pouco, um DJ tinha sido contratado e o equipamento de som da casa atualizado para o estado-da-arte. Um mixologista muito bom havia preparado uma carta de drinks admirável e até um grafiteiro renomado tinha sido contratado para decorar a fachada.

Apesar disso tudo, aplicava-se o aforismo: “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Cuidaram tanto das aparências que acabaram negligenciando um elemento essencial para o sucesso de um estabelecimento do ramo gastronômico: o atendimento.

Os garçons pareciam desorganizados, incapazes de planejar o atendimento para fazerem render melhor o seu tempo e o seu trabalho. Erravam pedidos, demoravam e frequentemente simplesmente sumiam em conjunto nalgum lugar no fundo do salão, deixando a clientela ao deus-dará.

Brasília se arvora ao posto de terceiro maior polo gastronômico do país. A gastronomia local é dinâmica, diversificada e de excelente qualidade. É uma pena, contudo, que muitos empresários do ramo não se dão conta da importância da qualidade do atendimento que reflita o seu produto tão esmerado.

Convenhamos: quando o atendimento reflete a qualidade da comida, as pessoas não se importam de comer em mesas de plástico embaixo de uma árvore. Da mesma maneira, não há manjar dos deuses que resista a um atendimento displicente, demorado e malfeito.

E, nesses casos, a justiça da economia de mercado não costuma tardar nem falhar: por mais suntuoso que um estabelecimento seja, por mais consagrada que seja a sua cozinha, se o seu serviço ruim criar fama e cair na boca maldita, logo fica às moscas. E daí é questão de tempo para vermos mais portas se fechando e mais pontos comerciais sendo passados para frente.

Não faltam consultores e empresas especializadas no treinamento de profissionais na área de hospitalidade. E todos precisam de treinamento e reciclagens constantes: da pessoa que dá as boas-vindas na porta ao cozinheiro e ao encarregado da limpeza, passando pelo garçom e barman, todos compõem a cara e a identidade do estabelecimento.

Se os empresários brasilienses realmente se conscientizarem disso, Brasília finalmente estará à altura do posto a que faz jus na gastronomia nacional.

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