19 de outubro de 2019
Olhar Brasilia

Marcelo Camargo

Samanta Sallum

A pergunta surreal – Pode encher o tanque, moço?

As multirrealidades da nossa cidade. Cenas de uma Brasília de mundos paralelos. A capital sofre, como o resto do país, com a greve dos caminhoneiros, a falta de abastecimento de combustíveis e de tantos outros produtos necessários ao nosso dia a dia. Transitar pela cidade desde quinta-feira passada me deu a sensação de estar dentro de um daqueles filmes surrealistas, onde as coisas parecem não fazer sentido, estarem fora do lugar, mas que explodem com um significado arrebatador e, para mim, nesse caso, angustiante.

Pressentindo que a situação se agravaria, na noite à quinta, a angústia começava vagando pelos postos de gasolina da Asa Norte, entre as 23h e a 1h da madrugada, avaliando as filas, seu fluxo, e acabei escolhendo a errada. Putz! Dois carros antes da minha vez, a fila foi encerrada porque o posto fechou sem gasolina. Mas consegui migrar em tempo para outro e encher o tanque. Que privilégio em tempos de Brasil no brejo.

Perguntei, meio atônita, por nunca ter me visto nessa situação, como acredito que todos aqui nunca se viram, se encher o tanque era possível, era permitido. Juro que fiquei confusa e perguntei: “Pode encher o tanque, o moço?”. Eu me senti desconfortável em pedir para encher o tanque. O que era um pedido tão natural passou a ser um feito surreal: encher o tanque do carro. Oi?! E o medo de os preços explodirem??

O que mais se fala é: “Nunca vi nada parecido acontecer. Parece coisa de tempos de guerra…”  

Na sexta-feira, acordei às 6h da manhã não com o despertador, mas com buzinas histéricas de carros encostados no eixinho da Asa Norte, meu prédio dá para o eixinho, à espera de abastecimento. Mas cadê a minha Brasília em que não se buzina?! Que susto, que ruim acordar com aquela barulheira atípica de Brasília na região em que moro.

Fui à janela e era a imagem do pré-caos. Pessoas de fora dos carros, como vimos no dias que se seguiram. Eu, apesar de ter combustível, tentava economizar ao máximo para evitar ter de enfrentar o caos nos postos. E tive a graça de receber carona para o trabalho, E, quando começou  a anoitecer, colegas me abordavam ansiosos para me perguntar se eu estava de carro e se poderia dar carona. Faltavam Uber e táxi, e os que tinham cobravam preços exorbitantes. 

Funcionários do local do meu trabalho que dependem de transporte público não tinham a menor ideia de como voltariam e a que horas conseguiriam estar em suas casas. Pessoas que moram longe do local de trabalho. É tão angustiante ver o desespero das pessoas nessa hora. Eu tive a outra graça de ter carona para voltar para casa, mas precisei sair correndo, deixar trabalho para trás, para não perdê-la.

Mas sábado foi um dia ainda mais surreal. Depois de passar por aquelas filas quilométricas de carros e pessoas aguardando horas para abastecer, avistei lanchas passeando para lá e para cá no Lago Paranoá. Para elas, não faltou combustível. Até me acalmei com aquela visão bucólica do Lago e do Sol, que brilhava sobre ele.

Mas fiquei sem almoço, aliás, ele aconteceu bem tardiamente, pois a tradicional entrega quinzenal das comidas congeladas não ocorreu, porque o fornecedor não tinha combustível.  Então, geladeira vazia, vamos ao mercadinho da quadra. Faltava pão, além de banana e outras coisinhas. Vamos à lanchonete, faltava pão.  Uma padaria estava fechada.

Vamos procurar outros lugares e, numa comercial deserta da Asa Norte, com a maioria do comércio já fechado antes das 17h, o clima de rua fantasma era quebrado lá embaixo na ponta com o maior sambão. Vazio e melancolia numa ponta; alegria e cantoria na outra ponta da rua. Um aglomerado de gente sambava, cantava, bebia, celebrava. Aquela coisa, não importa a m…em que estamos, o brasileiro tem vocação para a felicidade…

A gente sofre, mas se diverte. Isso é lindo às vezes, mas naquele dia achei esquisito. Eu saí também no sábado à noite para encontrar os amigos, tentar me divertir, mas que estava tudo meio esquisito estava.

Dias tão contrastantes, tudo tão lindo e feio ao mesmo tempo, cenas de caos e de beleza na mesma cidade, na mesma hora, com a mesma gente. Sabe aquela sensação de “isso está acontecendo mesmo?”.  Meu mais novo grupo do WhatsApp é “dicas de postos” para abastecer com menos fila. Encerro aqui para correr para um deles… Boa sorte a todos nos dias que nos esperam!

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Um comentário

  • Reply
    Eduardo
    2018-05-29 at 10:58

    Todos reclamam do excesso de carro … temos que andar de bike … caminhar pela cidade… daí, na hora que a porca torce o rabo, mostra a face automoveldependente.

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