24 de maio de 2019
Olhar Brasilia

Fotos: Diogo Ramos

Marcia Zarur

Povoado de Mesquita – riqueza cultural centenária ameaçada!

Um dos grandes privilégios de trabalhar com jornalismo é que ele nos leva a lugares e pessoas que não teríamos a menor chance de conhecer em outra profissão. Foi na gravação de um dos episódios do Distrito Cultural que fomos parar no povoado de Mesquita, uma comunidade quilombola perto da Cidade Ocidental.

Um dos moradores me contou o que acredita ser a origem do lugar: um português chamado João Mesquita doou a terra a três escravas alforriadas, que começaram o povoado muito antes de Brasília existir.

O documentário ‘Quilombo’, do grande diretor Vladimir Carvalho, mostra a realidade do ‘Arraial dos Pretos’, como o povoado era conhecido. No fim da década de 70 não havia energia elétrica e os moradores viviam do que colhiam, além de produzirem marmelada e cachaça. A cana de açúcar era moída no velho engenho de madeira, puxado por bois.

Esse pedaço do Brasil arcaico ainda resiste, em pleno século XXI, a pouco mais de 50 quilômetros da capital do país. A comunidade agora tem energia, telefones e carros, mas não abandona as cavalgadas e as festas tradicionais.

Os descendentes dos escravos celebram a festa do marmelo e são conhecidos pela produção de uma deliciosa marmelada, embalada em caprichadas caixinhas artesanais, feitas dos galhos do buriti.

Nas festas e na folia de reis, as tradições são preservadas e transmitidas para as novas gerações, com músicas e danças típicas da região, como a catira.

Mas o povoado pacato vive em sobressaltos nos últimos anos. Há tempos a especulação imobiliária ronda as terras herdadas pelas escravas alforriadas.

Ontem recebi de uma amiga um alerta, dizendo que o Incra quer deixar apenas menos de 20% das terras do povoado para os quilombolas. Os quase 4 mil e 300 hectares, hoje ocupados por eles, passariam para pouco mais de 700. A área retirada da comunidade seria destinada a construção de condomínios de luxo.

Se isso se concretizar, lamento pelas famílias simples e trabalhadoras que conheci por lá. E lamento também pela nossa história. Enquanto as nossas tradições, a nossa cultura e a nossa memória não forem prioridade, fica difícil pensar num país melhor…

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