21 de junho de 2018
Olhar Brasilia
Marcia Zarur

Brasília é Bianchetti

Quando eles chegaram, a cidade ainda era um canteiro de obras. Brasília era um amontoado de terra vermelha e sonhos. A família Bianchetti foi desbravadora do Planalto Central em 1962.

Dona Ailema, deixou o Rio Grande do Sul pra trás para acompanhar o marido, um dos maiores artistas contemporâneos brasileiros. Ailema e Glênio Bianchetti desembarcaram, com 6 filhos pequenos, para participar da construção da cidade-utopia.

Ele, já pintor respeitado, veio à convite do antropólogo Darcy Ribeiro. A missão era ajudar a dar forma à Universidade de Brasília. Uma verdadeira reunião de sábios, que pretendia revolucionar o ensino superior.

Basta ver o time de notáveis que começou a UnB: Glauber Rocha e Vladimir Carvalho ensinavam cinema, Oscar Niemeyer – arquitetura, Bianchetti, Athos Bulcão e Alfredo Ceschiatti – artes, Luis Humberto – fotografia, Roberto Salmeron – física…

O próprio professor Glênio uma vez me disse: “nós queríamos fazer a melhor Universidade do Brasil e provavelmente do mundo. Podia até parecer pretensão, mas era nisso que nós acreditávamos naquele momento.”

As dificuldades não foram pequenas, ainda mais depois do golpe militar de 64, mas o amor pela cidade também crescia de forma arrebatadora com o passar do tempo. Dona Ailema fala com saudades dos primeiros tempos de Brasília.

“Foi uma época muito bonita, a gente via tudo nascendo. Me sentia até meio dona de Brasília. Adorava mostrar a cidade quando os parentes vinham. A gente conhecia tudo quanto era cantinho”, relembra.

Vizinhos dos meus avós, na 305 Sul, os Bianchetti viraram família pra nós, com laços que a Brasília dos velhos tempos amarrou com força e afeto.

Professor Glênio Bianchetti deixou uma obra de valor inestimável e sua marca na identidade brasiliense. E Dona Ailema faz 92 anos ainda ajudando a construir, todos os dias, a cidade dos sonhos.

Ela cria caixinhas artesanais lindas, com a vida pulsante das cidades brasileiras, em detalhes minuciosamente e delicadamente elaborados. Ela tem um sorriso doce e um jeito meigo de falar e abraçar. Ela passa meses montando um dos presépios de natal mais lindos que eu já vi.

Dona Ailema é a ‘vó’ de uma penca de netos, de sangue ou adotados por ela, como eu. Os Bianchetti são a Brasília que nos dá muito orgulho!

Você também pode gostar

2 Comentários

  • Reply
    José Soares
    21 de junho de 2018 at 09:14

    Uma bela história que você está ajudando a contar e preservar.

    • Reply
      Marcia Zarur
      4 de julho de 2018 at 19:50

      Orgulho imenso da história da nossa cidade, Zé Soares, e das pessoas que ajudaram a construí-la! 🙂

    Deixe uma resposta