17 de setembro de 2019
Olhar Brasilia

Samanta Sallum

Samanta Sallum

À procura do amanhecer

Entardecer, noite, madrugada. A vida é assim, cíclica como a duração de um dia. Mas nesse movimento ora evitamos o amanhecer, ora ficamos ansiosos por ele. Quantas vezes passamos por aquela sensação de acordar e já estar no entardecer? Ou a de permanecer numa arrastada madrugada? Será o amanhecer que nos escapa ou nos é negado?

Ah, naqueles dias em que nos dói ver um azul, muito azul, de céu de uma manhã manhosa, insistente por nós. Aquele feixe de luz provocativo e irritante em penetrar por mínimas brechas da janela que nem uma cortina – black out contém. 

Um dos nossos olhos dá aquela espiada, erguemos uma das pálpebras como se ela pesasse 100 quilos. Estamos lá engolidos por uma cama que nos agarra como polvo. Uma vida lá fora nos chama, mas não temos força de abrir a janela. E vem o desconforto na alma ao saber que, para outros, o dia está sendo bem diferente.

Queremos a noite como refúgio, mas a madrugada depois chega fria e estamos sem cobertor. É muito difícil aquecer o vazio asfixiante de um luto. São os sentimentos e percepções de uma mulher que se confrontou com a perda precoce de dois grandes amores na vida que movem as páginas de “Debaixo dos Ipês”.

Marina Oliveira, 44 anos, mãe de Mila e Davi, é uma jornalista que poeticamente diferencia muito bem “viver de escrever” e “escrever para viver”.  É, assim, “vivendo e escrevendo”, que Marina compartilha o que ela mesma chama de “crônicas afetivas”, em que cabe um olhar amoroso também por Brasília, cenário carimbado de emoções nas pontinhas dos dedos.  

A morte da mãe, quando ela tinha 17 anos, em meio à intensidade de sentimentos da adolescência para a vida adulta, e a do marido, quando saboreava uma plenitude feminina quatro dias depois de fazer 40 anos, lançam Marina a desafios e batalhas internas num mundo que não abre mão dela, que todas as manhãs a chama.

Entardecer, noite e madrugada dividem as partes do livro que reúne textos escritos entre 2009 e 2017. Esse luto, um sentimento tão devastador, corre até suave, poético nas linhas de Marina, mas nem por isso menos dolorido em seu coração e alma. 

Eu procurei a parte do Amanhecer e, em princípio, do jeito óbvio, não achei. Mas, a cada final de crônica, um belo e luminoso feixe de luz saía da página finda. Percebia raiozinhos de sol das primeiras horas da manhã que nos aquecem. No fim do livro, todos eles formam um grande amanhecer subjetivo e universal.

Vale a pena abrir o livro, vale a pena abrir essa janela.

PS – Eu conheci o marido de Marina, a quem ela recorrentemente nos seus textos chama de “o meu amor”. Oswaldo Buarim foi meu colega de trabalho no jornal Correio Braziliense, como ela também, durante vários anos. A morte precoce e brusca, em 2015, também me entristeceu muito. Recentemente, fiquei feliz quando a autora me fez chegar às mãos o livro para uma “resenha”. Não sei se isso se encaixa numa resenha, mas deixo aqui o meu olhar “Debaixo dos Ipês” de Marina. 

Olha aqui! 

Lançamento do livro “Debaixo dos Ipês”, de Marina P.P. Oliveira

Coleção “Palavras Soltas”, da editora CHIADO

30 de junho – Domingo 

Às 16h 

Na Livraria Cultura do Casapark Shopping

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Um comentário

  • Reply
    César Fechine
    2019-06-30 at 15:22

    Samanta,
    Bela resenha! Muita luz para Marina e para você também
    Abraços,
    César.

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