11 de julho de 2020
Olhar Brasilia

Jamila Maria e Jean Peixoto

Lá na minha rua

Desvio para o Amarelo

Com flores da cidade, uma intervenção artística na paisagem urbana de Brasília

Nós, brasilienses, adoramos admirar a nossa capital de árvores floridas, a temporada dos ipês na seca. E agora, no período de chuvas, são as flores amarelas dos cambuís que pintam de poesia os caminhos da cidade.

Estão no alto da vegetação ou caídas, desenhando delicados tapetes sobre o asfalto. Esta semana, as flores pousaram em outro local, inusitado. Será que os brasilienses perceberam?

Nesse caso, a obra não foi assinada pela natureza. Mas, sim, pelo artista brasiliense Marcelo Calango. Duas grandes faixas amarelas (de 20m e 35m) foram “bordadas” com as flores secas no paredão da via N2 próximo ao Teatro Nacional. 

A instalação ‘Desvio para o Amarelo’ dialoga com a arquitetura de Brasília e fala da relação da cidade com a natureza pela observação do tempo, dos ciclos das árvores e do ritmo urbano da capital. É uma obra efêmera, que vai sumir naturalmente, mas pode ser vista até o vento levar ou a chuva cair”, diz Marcelo.

Garis

Para deslocar as flores, o artista antes passou por um outro processo, compartilhando um pouco da sua arte com os garis que varrem as ruas e calçadas da Praça do Buriti, local onde as flores se acumulam espalhadas pelo chão.

Marcelo varreu e juntou muitas flores e as guardou em sacos plásticos para transportar até o local da instalação.

Experimentou a estranha sensação de invisibilidade social que os garis vivem no trabalho. Mas também a receptividade de olhares mais sensíveis que interagiram com ele no processo que gastou muitas horas. 

Os garis, curiosos com a presença daquele varredor, meio forasteiro, vestido de branco fazendo arte no “quintal” deles, puxaram conversa. E uma conexão se fez.

Assim, os personagens da cidade se complementam, dando vida e significado um ao outro. “A arte é para as pessoas.”

“Os ciclos, o movimento, os deslocamentos, a impermanência, o território e a paisagem. Vem daí a minha poesia. Crio a partir de intuições, leituras, experiências e da observação e percepção do mundo. A arte ressignifica coisas, fenômenos, fatos, experiências”,  pontua Marcelo.

As flores amarelas estão lá, resistem em vitrine no paredão. Logo abaixo os brasilienses passam em seus carros frenéticos. Mas dá tempo, sim, para um olhar, uma percepção diferenciada e mais poética da cidade.

São esses olhares que costuram o mosaico de cenas coloridas de Brasília. É arte no caminho.

Tem mais para olhar no insta mcampos.studio

Imagens de Jean Peixoto e Jamila Maria

   

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