5 de agosto de 2020
Olhar Brasilia

Walter Sanches

Espaço convidado

A história da Vila Planalto em livro

Convidada: Leiliane Rebouças é bacharel em Relações Internacionais e moradora da Vila Planalto. Uma voz sempre atuante em defesa da cidade e da preservação do patrimônio.

Quem durante os últimos 60 anos poderia dizer que o Presidente do Brasil mora na frente da sua casa e trabalha no seu quintal?

A História mais recente do país foi vista de bem perto pelos moradores da Vila Planalto – vizinhos dos palácios e da Praça dos Três Poderes, que resistiram às tentativas de remoção do bairro ao longo de três décadas.

A escassez de documentação e registros dos relatos dos seus moradores deixa uma lacuna na História de Brasília, que segue privilegiando apenas a narrativa e a perspectiva que fortalece a ideologia desenvolvimentista: a de que Brasília é uma cidade que surgiu do nada como um passe de mágica e cuja construção foi envolta de igualdade e solidariedade nos acampamentos das construtoras (o que não é bem assim), que surgiram com data marcada para serem desconstruídos como todo canteiro de obras. (foto de Walter Sanches)

Para a “história oficial” interessa mais a perspectiva do presidente que mandou construir a nova capital, do urbanista que a projetou, do arquiteto que desenhou seus principais prédios e seus colaboradores, dos engenheiros, dos empresários que chegaram e fizeram fortuna, e da elite intelectual e artística que aqui se instalou. A visão do operário, do mestre de obras, do cozinheiro, da lavadeira, do homem e da mulher comum não interessa muito para o Estado que dá as diretrizes do que deve ou não ser guardado na documentação e memória dos arquivos públicos.

A História envolve uma escolha política sobre o que vai ser dito e o que não vai ser dito, o que vai ser mostrado e o que vai ser ocultado, e ao longo da história de Brasília, a Vila Planalto ficou relegada e escondida, seja por densa vegetação não interferindo na paisagem arquitetônica modernista (do ponto de vista urbanístico) , seja por sua história que foi silenciada ou restrita ao meio acadêmico por um ou outro pesquisador que se interessou por ela ( do ponto de vista da Memória do lugar). Seus prédios históricos de madeira, embora fossem tombados não resistiram ao descaso governamental na falta de fiscalização e conservação do patrimônio.

A Vila Planalto , assim como o Núcleo Bandeirante (Cidade Livre), a Metropolitana, a antiga Vila Paranoá, a Vila Telebrasília, o acampamento WSK e a Candangolândia são núcleos habitacionais que surgiram na construção de Brasília e abrigaram os trabalhadores dos acampamentos que erguiam a nova capital.

Eu sou filha de um desses operários que chegou a Vila Planalto em 1958 e foi fichado na construtora Pacheco Fernandes, vindo do Ceará em um pau-de-arara, como milhares de outros candangos vieram. Participando de toda essa história, decidi escrever um livro sobre a Vila, incentivada por uma amiga escritora da cidade.

Desafio aceito, dediquei-me por um ano e meio a escrever os relatos de alguns moradores da Vila, pioneiros e filhos de pioneiros de todas as idades a fim de fazer uma obra onde os moradores se reconhecessem e relembrassem os lugares do passado como: a antiga escola de madeira; os estádios de futebol do Defefê, Rabelo, Planalto; a antiga igreja antes do incêndio; o Centro Social; o Cebem entre outros.

Também procurei relatar como se deu o surgimento das entidades comunitárias do lugar e a história de resistência e luta pela permanência dos moradores, que durante os anos 60, 70, e 80 sofriam com as remoções de barracos promovidas pela Novacap e Terracap que pretendiam erradicar a Vila Planalto. Eu relato como foi a atuação do GT Brasília no período em que o Grupo das Dez iniciava a luta pela fixação e tombamento da Vila Planalto. É um livro que mostra o protagonismo das mulheres pelo direito a moradia no Distrito Federal.

Uma das intenções desse livro também é chamar a atenção para a importância de preservar o que ainda resta das edificações de madeira da Vila Planalto. Em 2018, visitei a cidade de Umeå, na Suécia e percebi como é possível preservar as casas de madeira remanescentes da construção de Brasília, por meio da experiência centenária da cidade sueca na técnica de conservação de patrimônios edificados em madeira. (foto de César Hauer)

O livro, que se chama “Vizinhos do Poder, História e Memória da Vila Planalto” está em fase de diagramação. O Prefácio é do arquiteto José Zanine Caldas Filho e o livro ainda conta na abertura com um texto da Embaixadora da Suécia no Brasil, Johanna Brismar Skoog.

Para que pudesse ficar pronto para ir para a gráfica, contei com a colaboração de muitos amigos como o revisor Gicello Bastos que revisou o livro e aceitou receber depois pelo trabalho; a amiga Nana Calimeris que se ofereceu para ajudar na publicação eletrônica sem cobrar; os fotógrafos Walter Sanches e César Hauer que permitiram o uso de suas obras; a pintora Júlia Baptista que fez uma ilustração para o livro sem cobrar nada. A diagramação e outras fotos estão sendo financiados por mim com a colaboração da amiga Thais Amado.

Mas, para que o livro possa ser publicado é preciso pagar uma quantia significativa de 8.600 (oito mil e seiscentos reais) para a gráfica. Por isso, decidi seguir a sugestão da minha irmã Leila Rebouças e dar início a uma campanha de financiamento coletivo entre os comerciantes da Vila Planalto e empresários de Brasília que estiverem dispostos a contribuir com esse projeto.

Vale olhar e ajudar!
O Olhar Brasília apoia este projeto. Quem quiser contribuir, pode enviar um e-mail para: leilianerebdf@gmail.com A ideia é que a colaboração seja feita em cotas de no mínimo R$ 300,00 (trezentos reais), e o financiador além de receber uma edição do livro, terá sua empresa listada como realizadora da obra. Caso a arrecadação ultrapasse o valor pretendido, a autora quer publicar uma quantidade maior de livros que serão doados para as bibliotecas e escolas públicas do DF.

Você também pode gostar

Nenhum comentário

Deixe uma resposta