2 de dezembro de 2021
Olhar Brasilia

Acervo Lucio Costa

Capa Marcia Zarur

Uma cidade sem memória

Com o telefone na palma da mão, ficou fácil pesquisar, mapear, descobrir… Uma revolução profunda em tão pouco tempo, que a gente esquece como era difícil realizar tarefas, hoje, triviais.

No último sábado, a Banquinha da Conceição montou uma exposição com os instrumentos de trabalho de um dos primeiros engenheiros a mapear a região do futuro Distrito Federal. Nos anos 60, tão perto na história e tão longe no abismo tecnológico que separa essas décadas, Joffre Mozart Parada foi o profissional responsável por estabelecer os limites das fazendas da região.

A filha Thelma Parada guarda os apetrechos que fazem parte da história da construção da capital. A maleta de couro que ele usava em campo, uma infinidade de slides com imagens históricas, o nanquim e os bicos de pena com que desenhava os mapas e uma série de instrumentos tão grandes e complexos, quanto enigmáticos – até pra minha geração, que não nasceu digital.

Olhando o rico acervo, imaginei os museus que visitamos no exterior e foi impossível não pensar em parte da história de Lucio Costa que perdemos para Portugal. Por que desprezamos tanto o nosso patrimônio e a nossa memória?

São tantos tesouros, escondidos em casas e depósitos, longe dos olhos dos brasilienses… O documentarista Vladimir Carvalho, um dos mestres do cinema, reuniu relíquias e montou um museu em sua casa na W3 Sul. O Cinememória reúne livros, documentos, cartazes de filmes, câmeras, fotos fantásticas e máquinas históricas, como a moviola usada por Glauber Rocha para editar o filme “Terra em Transe”. Carvalho doou o acervo para a Universidade de Brasília há quase 10 anos mas, com os sucessivos cortes de verbas, a instituição ainda não assumiu o museu, que continua fechado ao público.

Outro museu que o brasiliense espera, há anos, é o dedicado a Athos Bulcão. Parte da obra do artista, que pertence à FundAthos, não está exposta por falta de um local adequado. A sede permanente da Fundação, com projeto assinado pelo grande arquiteto João Filgueiras Lima (o Lelé), segue imobilizada pela burocracia. Não há o que faça sair do papel. E não é por falta de insistência da incansável Valéria Cabral, maior guardiã e defensora da obra do artista.

Aliás, a assinatura elegante de Bulcão na fachada do Teatro Nacional encanta quem passa pela área central da cidade e não nos deixa esquecer que o descaso dos governos mantem esse importante patrimônio da cidade de portas fechadas há inacreditáveis 7, quase 8, anos. Nossa cidade foi construída em menos de 4 anos e o Teatro segue interditado pelo tempo que JK teria erguido 2 Brasílias.

Queremos o Teatro Nacional de volta! Para isso foi criada a Associação dos Amigos do Teatro Nacional, ou ‘Atena’, em referencia à deusa da sabedoria e com esperanças de que ela inspire os gestores responsáveis. Vamos promover um grande abraço ao Teatro no próximo dia 7 de dezembro, a partir das 9 da manhã. Você está convidado a participar desse movimento em defesa da nossa cidade, da nossa história e da nossa memória.

A gente cuida do que ama, e ama o que conhece.

Por isso é tão importante valorizar a história.

Por isso é fundamental preservar a memória.

          

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