8 de maio de 2021
Olhar Brasilia

Seu Pedro em foto de Iano Andrade

Espaço convidado

Amor em 3×4

Convidado: Iano Andrade, 43 anos, fotógrafo e videomaker, brasiliense de Salvador/BA

Nascido e “mal” criado em Salvador, virei brasiliense por opção. Aqui, nasceu minha filha, Marina, fiz amigos, achei o amor. Tentei eternizar essa Brasília, onde vivo desde 2003 e que defendo como se fosse a Bahia, dentro de um pequeno “quadradinho”, assim como a chamamos carinhosamente. No interior dos saudosos monóculos.

Os monóculos surgiram nas pesquisas para o meu trabalho de conclusão da pós-graduação em Fotografia. O objeto de estudo eram os fotógrafos lambe-lambe e o universo analógico dos processos químicos, incluindo tudo que envolvesse a fotografia ambulante.

Em 2007, conheci um fotógrafo nas cabines de 3×4 da Rodoviária do Lucio Costa (sim, o projeto não é do Oscar). Seu Pedro me contou histórias de como ganhou dinheiro com a fotografia itinerante nas festas religiosas pelo Brasil. A engenhosidade em colorir fotos em preto e branco com a tinta do papel-crepom. A versatilidade de copiar fotos dentro das câmeras caixote e revelar os slides para os monóculos. Mas a parte que ele mais gostava de narrar eram as viagens de férias em família, com sacos cheios de dinheiro graças ao ofício que aprendeu “vendo” e ensinou aos filhos.

Pedro Brandão foi um dos primeiros fotógrafos a explorar o comércio de fotos 3×4 na Rodoviária do Plano Piloto. Iniciou com o boom das fotografias para documento na capital recém-inaugurada, passou pela crise da concorrência das 3×4 coloridas e entregues em 1 hora, e já no fim da vida fotografava com câmera digital e impressora térmica.

Foi Pedro Goiano quem desenhou e construiu as primeiras cabines de metal que serviram de modelo e onde até hoje são tiradas as 3×4 na Rodoviária, marco zero da nova capital”

Encantado pelas histórias de Seu Pedro, e com o prazo cada vez mais exíguo para terminar a pós, construí câmera lambe-lambe, comprei papel químico, monóculo, papel-crepom, troquei figurinhas com pesquisadores do assunto em Diamantina, Madri e Londres. Fiquei surpreso com a perseguição sofrida pelo processo em alguns países do Oriente Médio governado pelo Talibã, que não admitia a reprodução de imagens. Aprendi a usar a câmera lambe-lambe e escrevi minha monografia. Sobraram os monóculos.

Durante a produção de um vídeo para divulgar a programação da Banquinha da 308 Sul, nas comemorações do aniversário de 67 anos de Brasília, comentei com a amiga Conceição que ainda me restavam os monóculos. Os olhos dela brilharam como sempre quando se fala de Brasília. Dois meses depois de oferecida e aceita a ideia do suvenir, consegui preparar tudo e entregar. Estão lá na Banquinha, na 308 Sul, aos cuidados da Conceição Freitas.

Os monóculos com fotografias de Brasília são um pouco de tudo isso. Um pouco de fotografia, um pouco de Brasília, um pouco de conversas com amigos, um pouco de amor, um pouco de lembrança, um pouco de Seu Pedro. Que a terra vermelha lhe seja leve!

*Seu Pedro nos deixou em 2011.

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