8 de maio de 2021
Olhar Brasilia

Divulgação

Samanta Sallum

Berrar, rezar e chorar

É preciso saber a hora de dizer: “Não, não dou conta disso. Não, não exija de mim mais do que eu posso dar”. Não caia na síndrome do excesso de responsabilidade. Se o piloto sumiu, não precisa bancar o herói. Aperte o cinto e confie nos outros

É tempo de férias, é tempo de viajar. Dia desses, eu estava no aeroporto e me senti feliz por fazer parte do grupo que berra, reza e chora. Esquisito? Vou explicar. Quando eu era adolescente, me divertia muito assistindo àquelas reprises do Sessão da tarde de “Apertem os cintos que o piloto sumiu”, um clássico da comédia nos anos 80. Mal podia imaginar que aquele filme se impregnaria tanto em mim. Aquela situação da frágil aeromoça tendo de assumir o controle do avião para evitar uma tragédia me assombrou por muitos anos. O que me provocava gargalhadas na adolescência acabou virando um sintoma da síndrome do excesso de responsabilidade. Não sei se essa doença existe, mas o que eu sentia era algo que eu poderia definir assim. E muita gente deve sentir coisa semelhante.

Uma das minhas primeiras pautas, ao chegar a Brasília e iniciar a vida de repórter, foi uma simulação de acidente aéreo no Aeroporto JK. Um avião faria um pouso de emergência, com risco de explosão, e haveria passageiros feridos. Tudo seria feito com o máximo de realismo para testar as operações de socorro. Naquela pauta, eu aprendi quais eram os momentos mais perigosos de um voo e como são os procedimentos de segurança. Ali era o começo de uma carreira profissional que me colocou diante de grandes desafios e perigos. E foi se acumulando peso sobre peso de tanta responsabilidade que me era demandada e prontamente assumida. Imagino que muitos passam pelo mesmo, num círculo vicioso. Já estive envolvida diretamente em operações logísticas que zelavam pela segurança de milhares de pessoas.

Chega uma hora que o senso de controle sobre tudo o que está ao nosso redor, para assegurar que tudo estará em ordem, toma proporções irracionais e desumanas. Não, não é possível carregar o peso de um avião nas costas”

É preciso saber a hora de dizer: “Não, não dou conta disso. Não, não exija de mim mais do que eu posso dar”. Isso vale para trabalho, relações pessoais, familiares. Não estou pregando que as pessoas sejam irresponsáveis e levianas. Falo de limites. O auge da minha síndrome ocorreu durante um problema num voo, em que o avião fez várias tentativas de aterrissagem, arremeteu e depois ficou por quase meia hora sobrevoando um descampado, sem o piloto dar uma informação sequer. Eu pensei: “Vai sobrar pra mim, sempre sobra, sou eu que vou ter de assumir esse avião, ver lá o que está acontecendo, dar orientações ao piloto”, delirava. Eu assistia às cenas daquele filme na minha cabeça, e não era nada engraçado. Literalmente uma tragicomédia. Já passei por isso diversas vezes.

Nessa vez, eu ainda tentava acalmar um casal ao meu lado, com um monte de explicações técnicas, deixando-o, coitado, ainda mais nervoso. “O piloto está gastando o combustível, porque vai ter de pousar de barriga. Deve ter problema com o trem de pouso. Os bombeiros devem estar agora lá embaixo colocando espuma para preparar a pista”, discorria. Eu chegava a questionar a competência do piloto comigo mesma. Absurdo total.

Exigências

E sabe qual a parte mais doida de salvar um avião? É que o piloto salva a vida das pessoas e ainda tem gente indignada porque se arranhou. Na vida aqui embaixo, em terra firme, também é assim. Não tenha a síndrome do herói. Você pode decepcionar mais do que agradar. Tenha noção dos seus limites. Não seja omisso, mas não queira ser “superisso” ou “superaquilo”. Um dia, poucos anos atrás, eu me dei conta disso. Eu me desobriguei em todos os setores da minha vida a assumir toda a responsabilidade para mim. Eu não sei explicar direito, mas a ficha caiu. Aprendi a colocar limites nas expectativas e exigências das pessoas sobre minha capacidade de resolução.

E o melhor de tudo é que eu sinto profundamente que não tenho controle das coisas. Não depende só de nós. É fazer a nossa parte e entregar o resto para o céu mesmo. A vida não é nem um pouco lógica e precisa. Eu me desapeguei da responsabilidade, ela não viaja mais comigo. Hoje, naqueles sustos de voos, eu faço parte da galera que berra, reza, chora, faz promessa e depois esquece.

PS – Mas posso te assegurar algo: não tenha medo de avião. É, sim, um dos transportes mais seguros. E bem mais que carro, por exemplo. Boa viagem para quem sai de férias por agora. Pode ter certeza de que já tem muita gente boa e competente zelando por você e que o céu também nos protege.

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Um comentário

  • Reply
    Freddy Charlson
    2017-07-11 at 12:00

    Essa simulação de acidente aéreo no Aeroporto JK também foi uma de minhas primeiras pautas. Fiz pelo Correio Braziliense. Nos conhecemos nela, Sam…

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