8 de maio de 2021
Olhar Brasilia
Espaço convidado

Aparício e a loja de brinquedos

Convidado: Marcelo Canellas é repórter especial do Fantástico e morador de Brasília desde 2000.

A melhor maneira de medir a beleza de uma cidade é ver como ela trata seus moradores mais frágeis e desamparados. Uma cidade realmente bela os abraça. A ideia de fazer limpeza social expulsando os maltrapilhos, os rotos, os mendigos equivale a uma confissão de culpa. Estamos assumindo que queremos esconder a desigualdade que nós mesmos produzimos. É desconcertante olhar para o lado e reconhecer num vizinho o ódio higienista que nega a compaixão como virtude humana. A propósito da recente discussão lançada pelo Café Objeto Encontrado, da 102 Norte, (Veja o post sobre o assunto), relembro aqui, no Olhar Brasília, uma crônica que escrevi e publiquei em dois jornais em janeiro de 2005. Permanece mais atual do que nunca:   

Aparício e a loja de brinquedos 

Aparício largou o saco de latinhas e grudou os olhos na vitrine. Aquele cavalinho de madeira vale quantas latas de cerveja?

Certamente muitas – desanima Aparício Catador –, pois tem crinas vermelhas! Cavalo de pau com crina de pano encarnado vale todas as latas do mundo…

A dona da lojinha vê luz nos olhos do garroto e diz:
– Entra, pode brincar.

Aparício Cavaleiro sorri e pula na montaria. Só então ela vê que os pés do menino são virados para dentro, uma deficiência congênita, talvez, o que o faz andar mancando para os dois lados. A dona sente pena e o enche de perguntas. As respostas: tem oito anos o moleque. E mora debaixo de um pé de jatobá no terreno baldio da quadra, vizinho dos morcegos que dormem pendurados na copa. Aparício Batman se julga um deles e protege Gotthan City juntando latinhas no chão.

O menino veste farrapos remendados e tem cheiro de suor. Aparício Maltrapilho espanta os fregueses. Ninguém entra na lojinha enquanto ele galopa. Pedro, o filho da dona da loja, monta no outro cavalinho, o de crinas amarelas. Pedro tem três anos e – cheio daquela admiração que as crianças pequenas têm para com os mais velhos – vibra deslumbrado com os pinotes que o novo amigo consegue dar. Pedro aponta para o Pinóquio, Aparício ri do Capitão Gancho. E os garotos cutucam as marionetes penduradas, enchendo-as de pó de pirlimpimpim para fazê-las voar. E embarcam nos trenzinhos coloridos, cruzando pontes, passando vales, singrando rios.

E a lojinha agora é o mundo paralelo ao dos clientes de narizes torcidos. Aparício Remelento afugenta os compradores. Ninguém quer brinquedos usados por um menino malcheiroso. Porque todos olham para seus pés tortos, para seus trapos rotos, para seu cabelo duro, para suas mãos embarradas. Coisas que Pedro não consegue enxergar, porque o que está na frente dele é um amigo que sabe dar pinotes no corcel de crinas vermelhas. A dona da loja não vendeu nada. Mas ela, Pedro e Aparício salvaram hoje um pouquinho da humanidade.

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